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Para além dos estereótipos: o adoecimento causado pela invisibilidade bissexual

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26/06/2022 - 17:41:47. - Por Bruno Campos Última atualização: 26/06/2022 - 20:39:25.

Muitas vezes ignorados dentro da própria comunidade, bissexuais pedem por mais apoio e validação dentro da causa LGBTQIAP+ (Foto/Reprodução)

Pensar na comunidade LGBTQIAP+ é pensar em uma pluralidade de corpos, cores e, principalmente, orientações. Dentre a gama que compõe esta representatividade, está o “B”, longe de ser de “biscoito”, termo usado para se referir a querer “chamar a atenção”. O “B” representa uma fatia constantemente invisibilizada e invalidada: as pessoas bissexuais.

No resumo da ópera, a pessoa bissexual sente atração, seja ela física e/ou emocional, por pessoas tanto do gênero masculino, quanto feminino e, não necessariamente, na mesma proporção. Inclusive, esse é um dos “argumentos” usados por quem coloca à prova a orientação sexual alheia, de que a pessoa gosta mais de X do que de Y, o que tende a fazer com que ela seja colocada em uma caixa com rótulo pré-estabelecido.

Em um exemplo prático: um homem bissexual que se relaciona mais com homens do que com mulheres é lido pela sociedade, constantemente, como não sendo bissexual e sim, gay. Quando na verdade não existe uma medida quantitativa em que um é mais ou menos bi do que o outro com base em suas preferências. As pessoas têm a orientação com a qual se identificam. Gostar mais ou menos de um gênero não deveria ser (e não é) fator determinante para apontar qual a orientação do outro.

“É uma pessoa confusa”. “Você não sabe o que quer”. “Você está em cima do muro”. “Isso é só uma fase”. “Isso não passa de safadeza”. São algumas das violências ouvidas, de forma corriqueira e até mesmo em tom de brincadeira, por grande parte das pessoas que são assumidamente bissexuais. São esteriótipos levantados e alimentados quase que de forma cíclica.

Uma estudante, que preferiu manter sua identidade preservada, contou ao Jornal da Manhã, que a maior dificuldade para ela em se aceitar bi, não vinha da família, mas dos amigos que negavam a ela esse direito, dizendo que ela não passava de “bi de balada”, já que beijava meninas apenas em festas. A estudante ainda conta que, quando teve seu primeiro namoro com uma pessoa do mesmo gênero, sua namorada à época não só contestava sua orientação como dizia a ela que “já que ela era bi, a qualquer momento ela poderia ser trocada por um homem”.

“Eu ficava me perguntando o tempo todo se eu realmente era bissexual ou se eu não estava confundindo as coisas. Era tanta gente no meu ouvido falando o que achavam ou não sobre mim, que eu mesma deixei de olhar para o que eu sentia. Eu chorava muito, porque eu não me entendia e isso demorou mais de ano para ser resolvido na minha cabeça. Eu menti pros meus pais que estava com pensamentos suicidas, só para ir para uma psicóloga e ela tentar me ajudar. Foi aí que eu consegui entender, me aceitar, foi um período difícil demais para mim”, relata a estudante.

O psicólogo e doutorando em psicologia clínica pela Universidade de Brasília (UNB), Vitor Luiz, conta sobre como essa violência pode impactar a vida de uma pessoa e quais os malefícios causados por ela, mesmo que cada pessoa tenha uma reação individual, alguns comportamentos semelhantes podem ser percebidos.

“Existem algumas respostas comuns, comprovadas em estudos. As principais são o isolamento social, o retraimento das relações, o medo do abandono e do desamparo familiar, o medo do preconceito e das discriminações e uma forma muito dificultada de lidar com a própria sexualidade, com as escolhas sexuais e também amorosas”, explica o especialista.

Engana-se quem acredita que esta descredibilização da orientação sexual de uma pessoa se dá apenas no âmbito da heteronormatividade, onde ser heterossexual é o padrão, o normal, “uma vez que é uma orientação que rompe com a heterossexualidade hegemônica, que é a orientação predominante, colocando as demais como subsequentes e inferiores”, como aponta a cientista social Raewyn Connell. Muitas destas violências são vividas dentro da própria comunidade LGBTQIAP+, onde a mesma pessoa é, em grande parte das vezes, vista como “muito gay para ser hétero e, ao mesmo tempo, muito hétero para ser gay”.

Logo, um lugar de acolhimento e amparo, torna-se um ambiente que reprime e repele, quando não na mesma potência e intensidade, até muitas vezes mais que “o mundo lá fora”. É necessário entender a dinâmica desta relação e o papel que a comunidade tem para quem dela faz parte. É preciso cuidar de dentro para fora, antes de bradar por uma igualdade, visibilidade ou mesmo respeito, muitas vezes ignorados por quem está debaixo da mesma bandeira.

 


 

 

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