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Uberaba, 19 de setembro de 2021 -

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O que muda com o Novo Ensino Médio?

Diretor do Colégio Opção fala sobre as mudanças e os desafios de educar jovens no século XXI

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13/09/2021 - 07:49:14. Última atualização: 13/09/2021 - 08:20:23.

A lei da reforma do ensino médio, aprovada em 2017, começará a ser implantada em 2022. Entre as principais mudanças está que, além das disciplinas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), também serão incluídas disciplinas chamadas de Itinerários Básicos Formativos. Para entender as mudanças na base escolar que estão sendo implementadas, o Jornal da Manhã convidou Junior Afonso, diretor do Colégio Opção, para explicar e contar os desafios de formar os jovens do século XXI.

Os itinerários formativos são o conjunto de disciplinas, projetos, oficinas, núcleos de estudo, entre outras situações de trabalho, que os estudantes escolherão trilhar no ensino médio. “A educação mundial está em transição. Ela vem se transformando e a principal característica dessa transformação é a transição do trabalho essencialmente “conteudista” para o trabalho voltado para o desenvolvimento de habilidades e competências. Toda essa transformação tem relação com um contexto de desenvolvimento histórico, principalmente no âmbito do entendimento de que a Vida é e está se tornando cada vez mais complexa. Somente para ilustrar essa complexidade social, hoje, no Brasil, somos aproximadamente 211 milhões de pessoas e cerca de 95% vive na zona urbana; há 100 anos éramos cerca de 30 milhões de pessoas e cerca de 85% morava na zona rural. Vejam como a complexidade social era bem menor. É natural chegarmos a este momento vivendo inúmeros problemas decorrentes da nossa inabilidade de construção social. É necessário, obviamente, refletirmos e agirmos para transformar essa realidade. Pensando nisso, a educação no mundo começou a se mobilizar e obviamente no Brasil também”, disse Júnior.

Júnior menciona que os itinerários buscam motivar e engajar os jovens nas suas áreas de interesse. O educador explicou que é tudo muito novo e que acredita que algumas adequações ainda devem acontecer. “A construção do novo ensino médio, assim como tudo na vida, acontecerá de forma gradativa e o aprimoramento continuará sendo feito durante seu processo. Há questões importantes que ainda precisam ser consideradas.” disse.


Junior Afonso, diretor do Colégio Opção, explica como as novas mudanças vão impactar a vida dos estudantes

Entre os educadores a questão vem sendo discutida, principalmente no que se refere à redução da carga horária das disciplinas da BNCC. Júnior entende que esse é um ponto que certamente será aprimorado, uma vez que muitos direitos de aprendizagem básicos foram “retirados” e isso afetará principalmente os estudantes das instituições públicas. Para o Colégio Opção, Júnior contou que elaborou um itinerário formativo específico que estende essas habilidades básicas que o próprio Colégio entende que são também básicas se levarmos em consideração o contexto da própria instituição. “Como nós entendemos que os conhecimentos básicos e as habilidades básicas relevantes para o nosso estudante do ensino médio são maiores que a base, construímos um itinerário formativo específico para ampliar esse direito de aprendizagem básico”.

Segundo Júnior, o novo ENEM também sofrerá alterações e essas alterações devem estar alinhadas com essa forma de trabalho. “Ainda não sabemos com certeza como o novo ENEM será. O que sabemos é que o primeiro dia do exame será voltado para a Base e o segundo voltado para a área específica dos itinerários escolhidos pelo estudante ao longo de sua jornada no Ensino Médio. Se o estudante optou por caminhar por itinerários relacionados a área das Ciências da Natureza, no segundo dia ele fará um exame voltado para essa área. Se a escolha for para as Exatas, será voltado para as Exatas...” Para Júnior, um ponto importantíssimo nos itinerários do Novo Ensino Médio é que, ainda que seja uma forma de caminhar por caminhos que mais se afinam com o estudante, é imprescindível que a escola tenha a clara noção de que caminhar por uma área de interesse é sim uma forma de se aprofundar numa área de interesse que mais se afine e seja o perfil do estudante, porém, a formação precisa ser contextualizada através de noções claras de como resolver problemas em contextos complexos. “A Vida é complexa e interconectada, o ser humano preparado para essa nova estrutura social precisa estar preparado para entender essa complexidade e agir sobre a causa dos problemas e não sobre os seus efeitos” completa Júnior.

Para ilustrar essa transformação que já vem acontecendo na educação, especialmente no Ensino Médio, há algum tempo, o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) busca avaliar o desenvolvimento de habilidades e competências na solução de problemas através de um método que se chama Teoria de Resposta ao Item (TRI). Júnior explica como funciona o TRI “Não é porque o estudante acertou tudo que ele tira nota máxima ou se errou tudo que zera o exame (...) Deve existir coerência e lógica nas respostas. Nesse modelo, o acerto é mensurado em níveis e não em tudo ou nada, a questão é o quanto o estudante conhece e domina o contexto da questão”. E, certamente, o ambiente escolar deve acompanhar e mudar a forma de avaliar o estudante do século XXI para que, efetivamente, essas habilidades sejam desenvolvidas e competências atingidas para que tenhamos uma sociedade mais apta a solucionar problemas.

Segundo Júnior, não podemos nunca perder de vista que educação vai muito além de entrar em uma universidade. Ele reforça que isso é parte do processo e é sim importante, mas o principal é que nossos jovens sejam adultos maduros, autônomos e competentes em todas as suas dimensões.Júnior contou que começou a reformulação institucional no Colégio Opção em 2012 e, apenas em 2018, as transformações começaram a aparecer na rotina escolar. “O papel da Educação e, em especial, o da Escola está em construir um ambiente adequado, primeiro a esse entendimento, depois em possibilitar aos estudantes o desenvolvimento  das habilidades relacionadas à capacidade de resolução de problemas, cuja base é beneficiar o coletivo e não o indivíduo. Desenvolver essas habilidades é o real sentido da palavra amadurecimento” explicou o educador.

O século XXI traz novos desafios e os resultados dessa mudança são esperados a longo prazo e vai exigir preparo, principalmente dos profissionais da educação. “Para que a transformação da educação aconteça, é necessário grande investimento na capacitação dos educadores. Quando menciono investimento, menciono principalmente investimento na atenção e no planejamento para o repensar das práticas educativas e na formação permanente e adequada daqueles que operacionalizam a educação, principalmente o professor. O primeiro passo é assumirmos que ainda não interiorizamos completamente a noção da importância dessas transformações. E reforço, não é somente na educação, a sociedade, como um todo, precisa se aprimorar” contou o educador. Para Júnior, os profissionais de educação precisam iniciar um processo de transformação neles mesmos. “Precisamos ser o exemplo daquilo que desejamos que nossos estudantes se tornem, precisamos, pelo menos, ser mais humanos e assumirmos que também estamos em transformação e que não somos os donos da verdade. É preciso caminhar juntos” garante o Educador.

A escola é o primeiro ambiente social da criança fora do círculo familiar, e os jovens do terceiro milênio estão mais preparados, inclusive biologicamente, para o entendimento da vida por meio de argumentos lógicos.  Júnior garante que, “Se somos lógicos nos nossos argumentos, se dialogamos com transparência e verdade, crianças e jovens não têm dificuldade em caminhar, pois se sentem seguros. Filhos pedem afeto e limites, e isso precisa ser feito com coerência. O ponto principal é que, para educar bem as novas gerações, a fala tem que estar alinhada com a ação, não adianta falarmos algo e termos um comportamento diferente. Incoerência no ato de educar filhos é catastrófico” disse o Educador sobre como lidar melhor com crianças e jovens.  

O educador, que está há 17 anos na educação, há 9 anos vem transformando, não só a educação, mas também conceitos institucionais que beneficiem o desenvolvimento da sociedade de forma mais sustentável.  Júnior finalizou a entrevista com uma bela frase que, segundo ele, não é sua, e que também é um exercício diário pessoal e, sem dúvidas é um ensinamento não só para os jovens, mas também para todos nós que vivemos em sociedade: “Favorecer o coletivo não é uma ação somente admirável, é questão de manutenção da vida”.

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