Presidente da Siamig afirma que medida reduz dependência de gasolina importada, pode aliviar preços nas bombas e não traz riscos aos motores
A entrada em vigor da gasolina com 32% de etanol anidro (E32), prevista para 1º de agosto, é vista pelo setor sucroenergético como uma estratégia para reduzir a dependência brasileira da gasolina importada justamente em um momento de instabilidade no mercado internacional de petróleo. Em entrevista à Rádio JM, o presidente da Siamig Bioenergia, Mário Campos, avalia que a ampliação da mistura fortalece a segurança energética do país e pode amenizar parte da pressão sobre os preços dos combustíveis.
A medida foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) com validade inicial de 180 dias, prorrogável por igual período. Segundo Campos, além de ampliar a participação dos biocombustíveis, a decisão leva em consideração o cenário internacional, marcado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã e pelas incertezas em torno do Estreito de Ormuz, rota por onde passa parte expressiva do petróleo comercializado no mundo.
Nesse contexto, o dirigente lembra que, embora seja produtor de petróleo, o Brasil ainda depende da importação de derivados para abastecer o mercado interno. "O Brasil é um grande importador de derivados de petróleo. A gente exporta petróleo, mas importa derivados. No caso da gasolina, a gente importa entre 10% e 15% do volume que hoje consumimos. O petróleo voltou a ficar acima de 90 dólares o barril e essa gasolina importada chega ao país com custo do mercado internacional", explica.
Segundo Campos, entidades que acompanham o setor apontam atualmente uma defasagem superior a 50% entre os preços internacionais da gasolina e os praticados no mercado brasileiro, cenário que aumenta a pressão sobre toda a cadeia de combustíveis.
Os reflexos dessa conjuntura também são percebidos em Uberaba. Pesquisa do Procon realizada em janeiro de 2026, antes do agravamento do conflito no Oriente Médio e da tensão no Estreito de Ormuz, apontava preço médio de R$ 6,00 para a gasolina comum, R$ 6,33 para a gasolina aditivada e R$ 5,89 para o diesel. No levantamento mais recente, de 21 de julho, os valores passaram para R$ 6,13, R$ 6,39 e R$ 6,40, respectivamente, sendo o diesel o combustível que registrou a maior alta no período.
Na avaliação do presidente da Siamig, ampliar a participação do etanol na gasolina diminui a necessidade de compras externas justamente em um momento de maior volatilidade no mercado internacional. "Ao elevar essa mistura, eu reduzo essa dependência interna. A tendência é que a gente reduza bastante a importação de gasolina nesse período em que a mistura vai vigorar de 30% para 32%", afirma.
Além da redução das importações, o setor acredita que a mudança pode trazer reflexos positivos ao consumidor. "Quando aumenta o percentual de etanol, parte da gasolina é substituída por um combustível mais barato e que também paga menos tributos. Isso acaba contribuindo para diminuir o preço final na bomba", explica Campos.
Outra preocupação recorrente entre os motoristas diz respeito aos possíveis impactos da mudança sobre os veículos. Segundo o dirigente, a autorização do governo foi precedida por uma série de testes técnicos previstos na legislação brasileira. Os ensaios foram realizados pelo Instituto Mauá, referência nacional em pesquisas para a indústria automotiva, envolvendo 16 automóveis de diferentes gerações — incluindo modelos movidos exclusivamente a gasolina com quase três décadas de uso — além de 13 motocicletas.
Campos reconhece que parte dos consumidores teme perda de rendimento com o aumento do teor de etanol. "Etanol não é gasolina e gasolina não é etanol. Se houver alguma diferença de rendimento, ela é muito pequena e tende a ser compensada pela redução no preço. Estamos falando de variações de centavos", diz.
Além dos aspectos econômicos, o presidente da Siamig ressalta que a ampliação da mistura integra a estratégia brasileira de ampliar o uso de biocombustíveis, reduzir as emissões de carbono e fortalecer uma cadeia produtiva na qual o país é referência mundial. “ Uma das formas de avançar na descarbonização é justamente aumentar o teor de biocombustíveis nos combustíveis fósseis."
Embora a autorização tenha caráter temporário, a expectativa do setor é que os resultados obtidos durante esse período sirvam de base para futuras decisões sobre a política nacional de combustíveis.