CRISE DO PETRÓLEO

Etanol produzido em Minas ganha protagonismo diante da crise internacional do petróleo

Presidente da Siamig afirma que medida reduz dependência de gasolina importada, pode aliviar preços nas bombas e não traz riscos aos motores

Joanna Prata
Publicado em 23/07/2026 às 14:41
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A entrada em vigor da gasolina com 32% de etanol anidro (E32), prevista para 1º de agosto, é vista pelo setor sucroenergético como uma estratégia para reduzir a dependência brasileira da gasolina importada justamente em um momento de instabilidade no mercado internacional de petróleo. Em entrevista à Rádio JM, o presidente da Siamig Bioenergia, Mário Campos, avalia que a ampliação da mistura fortalece a segurança energética do país e pode amenizar parte da pressão sobre os preços dos combustíveis. 

A medida foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) com validade inicial de 180 dias, prorrogável por igual período. Segundo Campos, além de ampliar a participação dos biocombustíveis, a decisão leva em consideração o cenário internacional, marcado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã e pelas incertezas em torno do Estreito de Ormuz, rota por onde passa parte expressiva do petróleo comercializado no mundo. 

Nesse contexto, o dirigente lembra que, embora seja produtor de petróleo, o Brasil ainda depende da importação de derivados para abastecer o mercado interno. "O Brasil é um grande importador de derivados de petróleo. A gente exporta petróleo, mas importa derivados. No caso da gasolina, a gente importa entre 10% e 15% do volume que hoje consumimos. O petróleo voltou a ficar acima de 90 dólares o barril e essa gasolina importada chega ao país com custo do mercado internacional", explica. 

Segundo Campos, entidades que acompanham o setor apontam atualmente uma defasagem superior a 50% entre os preços internacionais da gasolina e os praticados no mercado brasileiro, cenário que aumenta a pressão sobre toda a cadeia de combustíveis. 

Os reflexos dessa conjuntura também são percebidos em Uberaba. Pesquisa do Procon realizada em janeiro de 2026, antes do agravamento do conflito no Oriente Médio e da tensão no Estreito de Ormuz, apontava preço médio de R$ 6,00 para a gasolina comum, R$ 6,33 para a gasolina aditivada e R$ 5,89 para o diesel. No levantamento mais recente, de 21 de julho, os valores passaram para R$ 6,13, R$ 6,39 e R$ 6,40, respectivamente, sendo o diesel o combustível que registrou a maior alta no período. 

Na avaliação do presidente da Siamig, ampliar a participação do etanol na gasolina diminui a necessidade de compras externas justamente em um momento de maior volatilidade no mercado internacional. "Ao elevar essa mistura, eu reduzo essa dependência interna. A tendência é que a gente reduza bastante a importação de gasolina nesse período em que a mistura vai vigorar de 30% para 32%", afirma. 

Além da redução das importações, o setor acredita que a mudança pode trazer reflexos positivos ao consumidor. "Quando aumenta o percentual de etanol, parte da gasolina é substituída por um combustível mais barato e que também paga menos tributos. Isso acaba contribuindo para diminuir o preço final na bomba", explica Campos. 

Outra preocupação recorrente entre os motoristas diz respeito aos possíveis impactos da mudança sobre os veículos. Segundo o dirigente, a autorização do governo foi precedida por uma série de testes técnicos previstos na legislação brasileira. Os ensaios foram realizados pelo Instituto Mauá, referência nacional em pesquisas para a indústria automotiva, envolvendo 16 automóveis de diferentes gerações — incluindo modelos movidos exclusivamente a gasolina com quase três décadas de uso — além de 13 motocicletas. 

Campos reconhece que parte dos consumidores teme perda de rendimento com o aumento do teor de etanol. "Etanol não é gasolina e gasolina não é etanol. Se houver alguma diferença de rendimento, ela é muito pequena e tende a ser compensada pela redução no preço. Estamos falando de variações de centavos", diz. 

Além dos aspectos econômicos, o presidente da Siamig ressalta que a ampliação da mistura integra a estratégia brasileira de ampliar o uso de biocombustíveis, reduzir as emissões de carbono e fortalecer uma cadeia produtiva na qual o país é referência mundial. “ Uma das formas de avançar na descarbonização é justamente aumentar o teor de biocombustíveis nos combustíveis fósseis." 

Embora a autorização tenha caráter temporário, a expectativa do setor é que os resultados obtidos durante esse período sirvam de base para futuras decisões sobre a política nacional de combustíveis.

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