Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta 1.571 mulheres assassinadas por razões de gênero em 2025; número é o maior da série histórica e cresce pelo quarto ano seguido
O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número desde o início da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento revela crescimento de 4% em relação ao ano anterior e confirma o quarto recorde consecutivo desse tipo de crime no país, mesmo em um cenário de queda das demais mortes violentas.
A taxa nacional chegou a 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres. Enquanto os homicídios e outros indicadores de violência letal apresentaram redução em 2025, os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades que registraram aumento.
De acordo com o estudo, 44,4% de todas as mulheres assassinadas no Brasil morreram por razões de gênero, o maior percentual desde que o feminicídio passou a integrar o Código Penal, em 2015.
Segundo a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, os dados mostram que a violência contra a mulher segue uma dinâmica diferente da violência urbana.
"Enquanto os homicídios vêm caindo, as mulheres continuam morrendo por serem mulheres", afirma.
A pesquisadora destaca que fatores como desigualdade de gênero, controle coercitivo, padrões culturais e fragilidades na rede de proteção dificultam a interrupção do ciclo de violência antes que ele resulte em morte.
O anuário também aponta crescimento nas tentativas de feminicídio. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato, alta de 5,9% em relação ao ano anterior. Isso significa que, para cada feminicídio consumado, houve aproximadamente 2,7 tentativas.
Além disso, aumentaram os registros de crimes relacionados à violência de gênero, como perseguição (stalking), com alta de 30%, violência psicológica, que cresceu quase 17%, e descumprimento de medidas protetivas de urgência, que avançou 16,7%.
Entre os estados com maiores taxas de feminicídio estão Amapá, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, concentrando os índices mais elevados nas regiões Norte e Centro-Oeste.
O perfil das vítimas mostra que 65,1% eram mulheres negras, 56,5% tinham entre 25 e 44 anos e 62,5% foram assassinadas dentro da própria residência.
Quando a autoria foi identificada, 96,4% dos crimes foram cometidos por homens. Em 60,9% dos casos, o agressor era o parceiro da vítima; em 18,9%, um ex-companheiro; e, em 12,1%, um familiar.
Os dados reforçam que o feminicídio costuma ser o desfecho de um histórico de violência doméstica. Em média, para cada feminicídio registrado em 2025, houve 502 ocorrências de ameaça, 182 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica, 84 registros de descumprimento de medidas protetivas, 79 de perseguição e 39 de violência psicológica contra mulheres.
O levantamento também identificou que ao menos 70 mulheres foram assassinadas mesmo possuindo medida protetiva de urgência em vigor, evidenciando os desafios na efetivação dos mecanismos de proteção às vítimas.