ARTICULISTAS

A natureza como ela é

Vânia Maria Resende
Publicado em 30/06/2026 às 17:59
Compartilhar

O sul-coreano Byung-Chul Han conta no seu livro “Louvor à terra: uma viagem ao jardim” a experiência de cultivo cuidadoso de um jardim. Faz declarações sensíveis sobre a sua relação delicada com ele, de dedicação constante. Sabendo de cada movimento do que habita esse jardim, que é como um templo, vive momentos únicos de prazer, admiração, descanso, meditação, agradecimento. Cúmplice e uno com a terra, não perde de vista até as gotinhas de água nas folhas e pétalas. Na interface com o filósofo, o poeta contempla cada flor que toca, cheira, olha, vê brotar, crescer, florir, passar pelo viço da floração, chegar à senescência e recomeçar novo ciclo.

Para Han, o seu jardim é a “realidade recuperada”, pois entende que no espaço da digitalização “a realidade é desrealizada, reduzindo-se a uma janela no interior do digital” (obra citada, p. 158). Ele faz uma citação de Heidegger, que remonta ao sentido antigo da palavra “salvar” aplicado à Terra: “Significa, na verdade: deixar alguma coisa livre em seu próprio vigor. [...] Salvar a terra não é assenhorear-se da terra”. A reflexão se aprofunda nesta direção: “Os mortais habitam à medida que acolhem o céu como céu. Habitam quando permitem ao sol e à lua a sua peregrinação, às estrelas a sua via, às estações dos anos as suas bênçãos e o seu rigor” (idem, p. 33).

A natureza não combina com geometrização que engessa, impedindo a expansão vital. O homem projeta o seu engessamento na árvore do seu passeio: a enquadra, querendo torná-la exótica para exibi-la. Submeter a identidade vegetal espontânea, instintiva, independente a critério de pretenso “bom gosto” é violentá-la. Não se julga beleza e gosto com critério de valor absoluto, mas se questiona a mutilação por parte de quem “assenhora-se da terra” e a torna artificial. Tornou-se moda e proliferou um tipo de poda que desfigura plantas com modelo geométrico da razão (não da criatividade, que não é repetitiva); árvores ganham forma quadrada, achatada, redonda. 

Reparo nas vias de Uberaba se árvores e flores são bem cuidadas por moradores, instituições, administração pública. Gosto de passar na rua Vigário Carlos entre a rua João Alfredo e a rua Tenente Wenceslau Oliveira. A harmonia genuína do conjunto das árvores é apenas nesse pequeno trecho. Dá para sentir um frescor, como se ali fosse um pequeno pedaço de bosque. Vi no site correiobraziliense.com.br, 29/04/2026, matéria sobre a rua Gonçalo de Carvalho, de Porto Alegre, ilustrada com linda foto. Apelidada de “a rua mais bonita do mundo”, tem “156 árvores que formam um túnel verde”. Como deve ser aprazível caminhar por ela, sentir-se na natureza, respirar o ar puro!

O oleiro Saburo, do romance português “Homens imprudentemente poéticos” (tradução brasileira, 2016), de Valter Hugo Mãe, cultiva um jardim em plena floresta, próximo de onde ele mora. Esforça-se em cultivá-lo da maneira que acredita ser ideal, pretendendo que a beleza seduza os possíveis suicidas que passariam por ali e os faça sentir que vale a pena viver. Os aldeões do local viam na obra de Saburo despropósito e ofensa à natureza, como conta o narrador: “O oleiro reprimia a natureza. Grotesca e sapiente das suas próprias fealdades e belezas, obrigar a floresta à gentileza de um jardim era ofensivo” (obra citada, p. 32).

Pelo prisma dos sábios aldeões, penso em jardins de estética espetaculosa e deformante dos encantos naturais (que fascinam por si só, pelo que são). Comparo dois jardins que vi em imagens, não pessoalmente, e me parecem visualmente antagônicos. Um deles é na China, com inúmeras esculturas de figuras humanas, bichos, montagem de ponte, torre, tapete, casa..., feitos em plantas, flores, grama, modelados com precisão, como se feitos com uso de compasso. No outro, o espaço Leonardslee Gardens, na Inglaterra, a natureza é cultivada e, de maneira exuberante, se transborda em cores e tons, com fartura de árvores e integridade das plantas e flores.

O oleiro encenava rituais: “subia e descia igual a cantar canções de embalar as flores, que eram só isso, quietas na verticalidade dos pés, erguidas sem oferecer mais nada além da delicadeza das evidências” (idem). Seja na floresta, em museu a céu aberto como o Inhotim (MG), na cidade (rua, praça, parque, campus, jardim botânico), a natureza faz bem pelo que é. “Civilizá-la” é desastroso. Sua essência está na sua naturalidade, a cultura não pode ser invasiva com ela. Poeta sabe disso, como Mário Quintana: “Essas vilas de arrabalde com os seus jardins bem-arrumados, bonitinhos, comportadinhos... Mas por que não a liberdade de um matagal selvagem? Por que não deixam ao menos a natureza ser natural?” (poema Urbanística).

 Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por