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Rotina

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 30/06/2026 às 18:05
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Rotina é algo desagradável, embora, para alguns, ela seja necessária, ainda que misteriosa, autoritária. Vamos pensar um pouquinho? Começa cedo, todos os dias. Você não quer se levantar da cama, mas se levanta — até a recusa faz parte da rotina. Daí não cessa mais: é rotina atrás de rotina, parece que a vida se resume a isso: acordar, tomar um café quente, sair para o trabalho, enfrentar a selva urbana, disputar o espaço das ruas, no transporte público, o almoço no boteco, chuva, calor, frio, o retorno silencioso, abafado. Você pode inventar o que quiser, mas não sai disso. E encerra a noite olhando o celular.

Rotina é como passar pela porta da frente: toda vez que entra ou sai, tem de trancar à chave. Por que isso? Não pode deixar a porta aberta? Não pode. Entra alguém que não foi convidado, entra um cachorro vadio, um gato que vai assaltar a cozinha, um curioso que vai comer o mingau esfriando em cima da mesa… Opa! Não, aí é história infantil, dos tempos da Carochinha, não vale.

Rotineiro era ler o jornal diário na parte da manhã, saber como andavam as costuras políticas e os alinhavos, o resultado do futebol, se a guerra acabou. Como ninguém mais tem tempo, inventamos de ler as notícias no celular. Ou nem lemos mais as notícias, só rimos de figurinhas e dancinhas impostas goela abaixo sem nos darmos conta disso. Um baita retrocesso. Melhor seria disputar figurinhas no bafo. Não foi só uma mudança do papel para a tela; alterou-se a percepção do mundo, e não nos demos conta do mal que isso nos fez.

O troço não se resume a tomar café da manhã, almoçar e jantar sempre no mesmo horário, não variar o cardápio, beber sempre o mesmo refrigerante. Rotina não é sair de casa sempre no mesmo horário e não saber a hora que volta, já que isso depende do trânsito, dos ônibus lotados, da chuva, do sinal quebrado, do mau humor do mercado, é pior.

A praxe é lavar a louça suja: se não, vai feder. No mais, cuidem-se para prestar atenção nos detalhes, observar o céu, perguntar se vai chover ou se vai esfriar. Aprendam a interpretar as nuvens, percebam se vestiram os sapatos certos. Olhar o céu em busca da Lua e saber qual a fase. Fase? Fase de quem? Ah, da Lua. E daí? Você vai cortar o cabelo por acaso? Não. Então, dizem, tanto faz. Você vai procurar algo mais útil para fazer? Não vai se preocupar com as estrelas, com o aquecimento global, com o autoritarismo político, com a violência contra as mulheres? Vai deixar o mundo continuar o mesmo lugar triste e opressor de sempre? Não adianta reclamar, faça o que o mestre mandar, diz o sujeito que adora a rotina dos outros.

Será a rotina uma estratégia de dominação?

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