Foi essa a pergunta que ele fez quando notou que eu estava sem o famoso aparelhinho. Encarei a pergunta com naturalidade, zero surpresa, e respondi sem receio: “Deixei em casa.” Ora essa, onde mais eu deixaria meu celular?
“Como assim? Você saiu sem celular?”, foi o comentário, indignado. “Sim, qual é o problema? Não pode mais deixar o celular em casa?” Aquilo começou a me incomodar, e ainda recebi uma baita bronca: “Claro que não. Onde já se viu uma coisa dessas? Virou um irresponsável agora? Sem o celular, você não é ninguém. É como se não existisse, torna-se um tipo sem identidade, sem substância, um desconhecido, um pobre coitado, um indigente. Hoje, só mendigos não usam celular, mas tenho minhas dúvidas, talvez eles os escondam enquanto estão trabalhando na mendicância.” Já pensaram num pedinte com celular? “Aceito Pix”, estaria escrito num daqueles cartazes de papelão.
Ele insistiu: “Por que deixou seu celular em casa? Está revoltado com alguma coisa? Resolveu lutar contra o sistema? Acordou tarde? Perdeu a hora? Quer mudar de vida? Confesse, o que te aflige? Já sei! Medo de ser assaltado, né? Pode falar, somos amigos, não fique constrangido.”
Ainda assim, mantive a calma: “Não tenho nada no meu celular, é um modelo antigo, uso mais para conversar com os amigos.” A irritação dele só aumentou: “Conversar no celular? Você quer dizer conversar mesmo, falar? O que os mais antigos chamavam de diálogo, ligação telefônica? O que você tem contra as mensagens de voz, contra emojis? Fala sério!”
Numa boa, respondi honestamente: “Prefiro cara a cara, gosto de conversar olho no olho, observando as reações.” Ele não se conformou: “Você está sendo irônico comigo. Onde você deixou seu celular? Esqueceu numa gaveta? Quebrou? Caiu dentro d’água?”
“Deixei em casa. Não preciso dele para ser quem eu sou.” Sua indignação aumentou: “E agora, o que você vai fazer sem celular? Como vai voltar pra casa? Como vai pedir um carro de aplicativo? Vai voltar a pé? Está de carro? Se for parado numa blitz, como vai fazer para mostrar seus documentos?” Expliquei que eu não tinha carro, ia e voltava de ônibus. “Tá, mas como você vai comer um lanche, tomar café no bar da Zilda? Como vai avisar à sua esposa que vai se atrasar?”
Aí foi demais para mim, tive de retrucar: “Mas eu nem sou casado, moro sozinho.” O caldo entornou: “Peraí, você não é casado? Você não é o Hélio? Quem são aquelas crianças lindas que eu vi numa foto que você postou?”
Ele devia estar me confundindo com outra pessoa. Tive de perguntar de onde nos conhecíamos. A resposta foi óbvia: “Ora, das redes sociais, somos amigos, curtimos as mesmas postagens, rimos dos mesmos memes, fazemos críticas e elogios para os mesmos políticos.”
E eu caí fora. É cada doido que aparece hoje em dia.