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A Copa do Mundo de 1970

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 22/06/2026 às 17:38
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Jogos de futebol nunca me atraíram, nunca fui um torcedor fanático. Meus pais e meus avós não eram torcedores. Falando francamente, eles não gostavam de nenhum tipo de jogo. Que eu me lembre, nunca ganhei uma bola de presente. Até o ano de 1970.

A Copa do Mundo estava marcada para maio e junho de 1970. Não me recordo se tivemos férias antecipadas ou se éramos liberados das aulas nos dias de jogo. O evento em si pouco me chamou a atenção. A vida seguia seu ritmo, considerando que vivíamos numa ditadura em que até as coisas relativas ao futebol sofriam censura. Na época, não entendi a troca de João Saldanha por Zagalo, não entendia por que o técnico que conseguiu a classificação da seleção não seria o técnico nos jogos. Não entendia os motivos que faziam uns gostarem tanto de futebol e outros detestarem. As razões não estavam restritas ao esporte em si, mas já se falava em manipulação das massas, em instrumentalizar o esporte a favor do regime, em propaganda política e coisas assim.

Tanto em nossa casa como na casa dos meus avós, a televisão já ocupava seu espaço, com direito a localização privilegiada, no centro da sala. A TV a cores só viria em março de 1972; também se dizia que era uma conquista da ditadura militar. Devido às questões políticas ou, talvez, às críticas feitas aos programas americanizados, meus pais não gostavam que assistíssemos à TV por longos períodos. Tinha hora para ligar e para desligar.

Sem a TV, a Copa de 1970 não teria sido o que foi. Os nomes dos jogadores eram intensamente comentados nos jornais e rádios. Não dava para passar incólume pela Copa, apesar do descaso dos meus pais e do meu avô. Eles nunca pararam nada do que tinham de fazer para se colocar diante da TV e assistir a uma partida sequer. Quem mudou o jogo foi minha avó. E, com ela, fomos nós. Ela era pura empolgação, virava uma garotinha, sabia a escalação do time, torcia como nunca tínhamos visto.

Não sei como, mas sabíamos o horário dos jogos e, na hora certa, meus irmãos e eu nos bandeávamos para a casa dela. Além dos jogos, tinha bolo, suco, biscoitos, queijos e doces em calda. Quer coisa melhor? Ela vibrava com os lances; cada gol e cada vitória eram comemorados como uma coisa espetacular — e eram! Alguns nomes foram eternizados na memória: Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino e tantos outros.

A competição foi para nós, as crianças e minha avó, uma aula de geografia. Aprendemos coisas sobre o país-sede, o México, e as cidades de Guadalajara, Cidade do México, etc., onde aconteceram os jogos. Saber que as transmissões vinham de longe era mágico. Hoje, muita coisa mudou, mas o futebol continua mexendo com o imaginário de muita gente.

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