ARTICULISTAS

A síndrome do pequeno poder: “aqui eu mando”

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 05/07/2024 às 17:52
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Regis Ponce é um paulistano e consultor de empresas que há 18 anos reside na Espanha. Em 2021, prestou consultoria à Unimed Uberaba e por alguns minutos esteve no Conselho de Administração da Unimed, onde eu estava, mas deixou uma mensagem importante para o bem viver e o relacionamento humano.

Ele nos disse: “quando forem contratar um colaborador, escolham pelo temperamento e, se ele não tiver conhecimento, treine-o, capacite-o, qualifique-o. Terão então um colaborador com bom temperamento e com bom conhecimento, já que muitos colaboradores são contratados apenas pelo conhecimento, mas demitidos pelo temperamento”.

O temperamento é importante e fundamental em todas as profissões humanas, acarretando sucesso ou insucesso profissional. Até as verdadeiras amizades são alicerçadas quando os amigos têm bom temperamento. No casamento, é vital. No relacionamento profissional liberal/cliente, idem. No serviço público, é fundamental. 

Sabemos das imperfeições humanas e cada um de nós tem uma cota de erro para gastar. Porém, o contrário do exposto, o mau temperamento, está no portador da “síndrome do pequeno poder”, onde o agente, dispondo de certo espaço de poder e sempre trazendo a verdade pronta, assume postura autoritária e/ou opressiva contra os submetidos ao poder que exerce (comum em ambientes hierárquicos).

No dia 6 de outubro de 2023, sexta-feira, às 20:30 horas, estive na UPA São Benedito, onde uma senhora amiga estava há 16 horas aguardando ser transferida para o Hospital de Clínicas (HC) para remover um pequeno besouro que entrara em seu ouvido. Após entrar em contato com o médico otorrinolaringologista de plantão, que estava dentro do HC, levei a paciente até a entrada do Pronto Socorro, onde me identifiquei, mostrando o meu crachá de aposentado e disse que o médico estava esperando.

Vi as duas recepcionistas franzirem a testa, estranhando a situação. Chamaram a enfermeira responsável pelo setor e, com a voz em altos decibéis, esta perguntou o que estava acontecendo. Relatei o fato e a resposta foi “temos normas a seguir”, certamente se referindo aos pacientes que devem chegar ao HC de ambulância, que não estava disponível no momento pela UPA.

Essa enfermeira permitiu a entrada da paciente, impedindo que eu entrasse no HC, pois eu era aposentado e “quem mandava ali era ela”.

Respondi que entraria pela porta da avenida Getúlio Guaritá, o que procurei fazer. Porém, ao tentar entrar, um servidor, já orientado pela enfermeira, impediu-me, dizendo que aposentados não entravam. Naquele momento, minha boca secou e as minhas mãos esfriaram.

Por telefone, contatei a vice-reitora, que, falando com o servidor, liberou minha entrada. Fui assistir à retirada do besouro e levei a pessoa amiga para casa. 

Naquela noite, consegui dormir somente após as 02:30 horas e às 07:00 horas do dia seguinte, no meu local de trabalho, na sala de recuperação pós-anestésica, solicitei que verificassem a minha pressão arterial. Estava 150x100 mmHg, quando normalmente é 110x70, o que evidenciava ainda a presença do estresse que eu sofrera.

A Ocemg (Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais), no curso “Gestão de Conflitos”, alerta para os dois sinais de conflito: alteração facial, demonstrada pelas duas recepcionistas, e alteração do nível da voz, ou seja, os altos decibéis da enfermeira. 

Aprendi com legisladores que há duas interpretações das normas ou leis:
1- filológica: é a obediência fria ao que está escrito, matando as leis ou normas;

2- hermenêutica: obedece ao espírito da lei, procurando analisar caso a caso, como disse Martin Luther King Jr.: “a mim não interessam as leis, mas sim quem interpreta as leis”.

Posso afirmar que a referida enfermeira, ao impedir a minha entrada, era a representante legítima da “síndrome do pequeno poder”, pois nunca houve portaria, ofício, resolução ou memorando impedindo aposentados de entrarem no HC. A decisão tomada por ela foi pessoal, não havendo sequer interpretação filológica e nem hermenêutica, pois não houve ordem administrativa ou jurídica.

Como estou na terceira idade e curado da minha juventude, não acionei essa enfermeira na Justiça por assédio moral, pois houve várias testemunhas deste fato. Mas é necessário retirar a “síndrome do pequeno poder” de diversos níveis dentro do HC, pois Dr. Odo Adão, anos atrás, por ser aposentado, foi impedido de entrar no HC para ver o corpo de sua irmã falecida, assim como a ex-enfermeira chefe do HC, Maria Aparecida Xavier. Na atualidade, felizmente, a atual administração da UFTM tem combatido essa desagregadora síndrome.

 Nilson de Camargos Roso

Doutor em Anestesiologia; professor aposentado pela UFTM

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