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Filmes de Ficção Científica (III): A Ameaça Que Veio do Espaço

Guido Bilharinho
Publicado em 13/06/2026 às 17:28
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Na década de 1950, multiplicaram-se no cinema dos Estados Unidos os filmes de ficção científica. Com raras exceções, produções baratas em preto e branco, utilizando, por isso, o mínimo indispensável do que viria posteriormente ser denominado de “efeitos especiais” e que, à época, ainda mantinha a primitiva designação de truques.

Do ponto de vista temático, uma das principais vertentes dessa categoria fílmica foi a preocupação e ocupação com as consequências da radioatividade, que poucos anos antes havia impactado o mundo com o crime contra a humanidade de lançamento de bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, populosas cidades japonesas onde nem ao menos existiam bases militares capazes de representar qualquer ameaça. Mataram-se, mutilaram-se física e psicologicamente apenas civis que não tinham responsabilidades militares e muitos deles, como normalmente ocorre, deveriam ser pacifistas, infensos e contrários à guerra, àquela e a todas as demais. Mas pagaram com a vida, quando não com a saúde física, mental e emocional.

A partir desse fato e do próprio desenvolvimento das pesquisas e descobertas atômicas, cresceram o interesse e a curiosidade em torno do assunto.

O cinema não permaneceria alheio ao tema, como, aliás, não permanece em relação a qualquer questão, mormente quando momentosa.

Outra tendência importante dessa filmografia centrou-se na vinda à terra de alienígenas, mais do que em viagens espaciais de terráqueos a explorar o universo, já que, ao tempo, mal se iniciava a corrida espacial entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos.

Na primeira vertente, exploraram-se particularmente os efeitos da radioatividade sobre insetos e animais, que, por força disso, transmudados em monstros gigantescos que a tudo depredavam e devoravam, a exemplos de formigas, que sofriam desvios e mutações genéticas, transformando-se em animais altamente agressivos e predadores. Entre seus filmes, cite-se O Mundo em Perigo (Them!, 1954), de Gordon Douglas.

Na segunda categoria, a vinda de alienígenas, lembrem-se A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1953), de Byron Haskin; A Bolha (The Blob, 1958), de Irvin S. Yeaworth Jr., refilmado em 1988 sob o título A Bolha Assassina (The Blob), por Kevin Dillon; O Monstro do Ártico (The Thing From Another World/The Thing, 1951), cuja direção ora é atribuída a Christian Nyby ora a Charles Leclerer e ora a Howard Hawks; Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, refilmado duas vezes.

Cita-se ainda A Ameaça Veio do Espaço (It Came From Outer Space, EUA, 1953), de Jack Arnold (1916- 1992), às vezes denominado apenas de “Veio do Espaço”, baseado em texto de Ray Bradbury, um dos mais importantes autores do gênero.

Nesses filmes, como não poderia deixar de ser, os alienígenas ora são pacíficos ora agressivos, ora atacam com armas, ora assenhoreiam-se do corpo humano, dominando sua mente, ora simplesmente o deglutem. Com exceção do filme de Jack Arnold, em todos os demais casos são hostis.

Na realização de J. Arnold, a influência positiva de Bradbury prevalece e é evidente, sendo responsável direta pela alta carga de humanismo e ânsia de contatar e conhecer os viajantes espaciais da parte do protagonista, presa de sadia curiosidade e bons propósitos em relação aos desconhecidos.

Essas características direcionam o filme, impedindo-o de cair na vala comum do meramente espetaculoso.

Arnold não era, pelo menos então como ainda simples estreante no longa de ficção, diretor com desenvoltura e ideias próprias. Haja vista, por exemplo, o filme que dirigiu no ano seguinte, O Monstro da Lagoa Negra (Creature From Black Lagoon, 1954), de total primarismo temático e formal. Um filme simplesmente tolo.

 Isso não acontece com A Ameaça Veio do Espaço, bom exercício no gênero, em que não só a narrativa é essencializada ao máximo quanto, mesmo na sua excessiva simplicidade, é dinamizada de conformidade com as necessidades e imposições dramáticas.

Não se perde tempo, pois, já que a ocorrência inusitada da chegada da nave espacial exige decisões rápidas e providências imediatas.

Um dos aspectos mais notáveis, do ponto de vista direcional, é a escolha, direção e interpretação do ator que encarna o protagonista, cuja diferenciação expressional entre as despreocupadas cenas iniciais e as que se referem ao contato com os alienígenas é apropriadamente conduzida.

A importância e as implicações do evento para quem, inclusive, se dedicava amadoristicamente a observações do espaço sideral, operam e aceleram nele, em minutos, perceptíveis tensão e preocupação, que, como intelectual e humanista, vão determinar seu comportamento e atuação daí em diante.

Aliás, essa percepção psicológica de Arnold revela-se até mesmo no citado filme do monstro, cuja ação transcorre na Amazônia, onde consegue plasmar a personalidade e o caráter antípodas do chefe da expedição e do cientista, não só em seus comportamentos, mas principalmente nas expressões faciais do primeiro.

Não faltam à A Ameaça Veio do Espaço as personagens que só entendem o uso da força como modo e meio de enfrentar os problemas, fundamentando-se essa belicosidade na desinformação e nas evidências externas enganosamente agressivas.

Além disso, não obstante seu convencionalismo narrativo, o filme, de modo geral, é bem dirigido, embora não atinja o patamar artístico, a não ser nas cenas que antecedem os primeiros contatos com os alienígenas, em que se cria clima de expectativa e mistério, e nas cenas em que os alienígenas situam-se no contracampo da visão de eventual interlocutor ou contato humano, quando é mostrada sua percepção das coisas revelada de dentro para fora, como se a câmera estivesse no interior de seu globo ocular.

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