Todos temos em nossas famílias crianças, adolescentes e jovens que poderiam ser chamados de “geração das nuvens”. Praticamente não tiram o celular das mãos. Cresceram imersos na internet, nas redes sociais e nos smartphones, convivendo desde cedo com a conectividade permanente.
Nós, que lutamos arduamente para conquistar uma condição de vida melhor para nossos descendentes, e até mesmo amigos e amigas, os mais simples, sonhamos para os filhos um caminho de estudo, educação, ascensão social e uma profissão estável.
Temos colegas que se tornaram empresários de renome; outros, com muito esforço e anos de trabalho registrados em carteira, construíram uma vida digna, abriram pequenos negócios e imaginaram ver os filhos dando continuidade à jornada que iniciaram. Quando percebem que isso não acontecerá, sentem uma profunda decepção.
Mesmo contando nossas histórias de luta, de casamentos difíceis, de renúncias e de uma vida inteira dedicada à família, muitas vezes recebemos uma resposta direta: “Não quero essa vida para mim”.
Lembro-me perfeitamente de quando nosso pai desfez o jornal da família, O Triângulo. Depois, montou uma gráfica e, quando eu e Ani tínhamos 13 anos, levou-nos até as máquinas e disse: “Vou ensinar uma profissão a vocês. Assim, nunca passarão necessidades”.
Observamos, curiosas, as letrinhas da tipografia organizadas aqui e ali. Fizemos algumas impressões de panfletos, aprendemos o básico do ofício e, ao final, em meio à barulheira das máquinas de impressão, eu e Ani olhamos para nosso pai e respondemos “na lata”: “Nosso caminho não é esse”.
Nunca quisemos seguir os passos dos pais nem conhecer em profundidade os esforços que fizeram. Imaginem os jovens de hoje ligados à internet, que demonstram valores e ideais diferentes, rejeitam hierarquias rígidas, trabalhos engessados e a ideia de viver exclusivamente para uma profissão imposta! Trabalham, muitas vezes, naquilo de que gostam. Estudam por interesse, não apenas por obrigação. Aprendem novas tecnologias, experimentam outros caminhos profissionais e parecem menos preocupados com a busca da perfeição. Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade marcada por profundas desigualdades, o que torna essa realidade bastante diversa.
Muitos de nossos filhos querem voar sem destino definido, viver o presente e valorizar o tempo livre, a qualidade de vida e o bem-estar. Frequentemente, preferem uma existência mais simples à estabilidade que encantava nossa geração.
É comum ouvir amigas preocupadas com netos que recebem oportunidades profissionais, mas não demonstram interesse em aproveitá-las.
Talvez seja melhor deixarmos que procurem aquilo que realmente desejam fazer. Estamos diante de uma geração hiperconectada e hiperestimulada. Para nós, muitas vezes, é decepcionante percebermos a falta de atenção ao que falamos, a comunicação abreviada, a impaciência e a dificuldade crescente em lidar com frustrações e cobranças.
O choque de gerações, inevitavelmente, nos incomoda. Mas será que não estamos apenas seguindo as regras que herdamos de nossos pais? Será que não relutamos em aceitar que, enquanto para nós o dever ocupava sempre o primeiro lugar, nossos jovens valorizam mais o bem-estar e não enxergam a estabilidade profissional da mesma forma?
A realidade dessa geração é marcada pelo acesso imediato à informação e pela busca constante de soluções rápidas. Diante desse cenário, a melhor atitude não é despejar críticas nem alimentar preconceitos. É construir pontes de diálogo entre pais, filhos e netos.
Não devemos considerá-los “flocos de neve”, assim como eles talvez nos considerem “dinossauros”. Nosso papel não é mudar suas cabeças, mas compreender que o mundo em que cresceram é muito diferente daquele em que vivemos.
Isso não significa que toda uma geração esteja despreparada ou vivendo apenas “nas nuvens”. Generalizações costumam ser injustas. Muitos jovens são responsáveis, criativos, empreendedores e altamente capacitados. Apenas possuem valores diferentes dos nossos.
A verdade é que nenhuma geração é melhor do que a outra. Todos fomos moldados pelas circunstâncias do nosso tempo. O desafio não está em mudar os jovens nem em condenar nossos pais, mas em aprender a ouvir, compreender e respeitar as diferenças.
Afinal, antes de pertencermos a qualquer geração, somos todos seres humanos, com nossas falhas, inquietações, sonhos e aborrecimentos.
Dois beijos...