ARTICULISTAS

O fim do dinheiro

Ani e Iná
Publicado em 10/07/2026 às 15:29
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Acho que estamos assistindo aos últimos dias do dinheiro. Não me refiro aos meios de pagamento nem às fortunas de modo geral. Refiro-me ao papel-moeda, às moedinhas e a outros itens assemelhados, como os cartões de plástico, conhecidos como cartões de banco ou cartões de crédito. Sim, é uma sensação estranha saber que algo tão próximo de nós pode desaparecer para sempre, virar objeto de museu, mera lembrança dos mais velhos, e nada mais. Vai acabar, virar pó, desaparecer no correr dos dias, anos, séculos.

Será que deixará saudades? Alguém vai sentir falta de carregar moedinhas nos bolsos, de ouvir seu barulho característico, de ver um miserável implorar por uma moedinha na saída do supermercado? O que faremos com as icônicas carteiras de dinheiro, onde colocávamos as notas de papel? Vão desaparecer os temidos batedores de carteira? Não vamos mais organizar as notas em ordem crescente nem esconder algumas no sapato para não sermos roubados? Não vamos mais escrever mensagens ou xingamentos nelas nem tentar entender a simbologia por trás do design das notas, as figuras, os números de série?

O lado bom é que os políticos corruptos terão mais trabalho, pois precisarão bolar novos artifícios para esconder a propina; cofres e caixas de sapato perderão a primazia. Espero que demorem a encontrar outros esconderijos. Fica o alívio momentâneo de que, por algum tempo, a safadeza vai diminuir. Será? Em alguns salões já se fala abertamente das bitcoins, as moedas virtuais e de como acumular mais riqueza com elas. Pois é, não será o fim do dinheiro que vai fazer a humanidade mudar, mas…

Numa retrospectiva breve, desde priscas eras as sociedades usam meios para facilitar trocas e outras negociações. Conchinhas da praia já serviram de moeda, dentes de animais, sementes, chás, sal e por aí vai. São as chamadas protomoedas. Aliás, algumas delas valem uma nota, são objetos caríssimos, itens de leilões exclusivos — será que os leilões vão continuar? Como serão feitos os pagamentos pelas mercadorias arrematadas?

Ao longo do tempo, moedas foram usadas para fins diversos: acumular riqueza, servir como meio de troca, pagar por serviços prestados, comprar, vender e até ostentar. É triste, mas, ao mesmo tempo que servem para a fanfarronice de exibidos e vaidosos, servem para oprimir pessoas, explorar trabalhadores, extorquir as pessoas, excluir os mais pobres e os mais fracos. Foram milhares de anos de artimanhas cruéis, mas seu fim está próximo e deve chegar sem grandes mudanças estruturais, pelo menos por ora. O futuro continua uma incógnita, mas as transformações vão acontecer.

É diferente dos livros, por exemplo, cujo fim já foi anunciado várias vezes, mas eles continuam por aí. Não posso garantir que nunca tenham sido usados para opressão, mas, na maioria dos casos, são instrumentos de libertação. Quanto ao dinheiro, tal como o conhecemos, espero que ninguém chore pelo seu fim.

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