Quando cheguei ao consultório do bom geriatra que acompanha minha mãe, de 82 anos, postei-me atrás de um senhor moreno, igualmente acompanhado por sua filha. Ele voltou-se para mim e sorriu. Retribui o sorriso acompanhado de um “bom dia”. Depois deles, eu e minha mãe nos sentamos. Havia ali outros idosos, alguns sozinhos, outros escoltados por parentes. Ainda assim, o ambiente era de silêncio, quebrado apenas pelos toques dos celulares que ensejavam breves conversas.
Todos se moveram em sobressalto quando aquele senhor caiu em pranto descontrolado, sentido, doído. Um lamento das entranhas da alma. Num segundo, a jovem que o acompanhava pôs-se em pé ao seu lado, inclinou-lhe ternamente a cabeça contra seu peito e, afagando-lhe o rosto de barba malfeita, dizia “Calma, pai... calma!”
Ele segurava uma das mãos da jovem filha e seguia em desgosto. Clamava ajuda a Deus para que fosse dele afastado o sofrimento. Momentos antes que as lágrimas estancassem, ele revelou o motivo de tanta dor: “Hoje está com trinta dias que eu perdi minha filha”, confessou como quem se desculpa. Meus olhos ensaiaram juntar-se aos dele nas lágrimas. Aos poucos ele acalmou-se e o silêncio retomou seu reinado.
Os celulares voltaram a tocar. As pessoas os atendiam, falavam e riam. A dor era dele, afinal. Imagino, contudo, que, por alguns momentos, ele a tenha dividido com todos da sala. Era como se ele buscasse alguma solidariedade fazendo a todos saber da filha morta. Talvez eu devesse ter me levantado e lhe segurado a outra mão, sem nada dizer. Mas não fiz isso. Estranho esse mundo.
A filha lhe deu um copo d’água, fez no pai um carinho mais e voltou a sentar-se.
Um minuto depois, o silêncio de pai e filha era mais forte que o nosso. Ambos tinham os olhares voltados para o chão. Olhares idênticos para o vazio infinito.
(*) Escritor e contador de estórias e histórias