ARTICULISTAS

A peixaria dada ao gato

Nas últimas semanas o Brasil tem assistido

Carlos Alberto de Oliveira
Publicado em 10/05/2013 às 20:30Atualizado em 19/12/2022 às 13:10
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Nas últimas semanas o Brasil tem assistido a entusiasmados embates contra e a favor da nomeação do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Contra ele pesam as posições publicamente assumidas e consideradas racistas e homofóbicas por inúmeros grupos – alguns, evangélicos – que organizaram diversas manifestações por todo o país.

A biografia apresentada em seu site oficial mostra um homem perfeito com todo o material necessário à construção do melhor dos mundos sob o braço e pronto para iniciar as obras, num indisfarçado trabalho de marketing pessoal escrito de próprio punho. Na contramão da perfeição, porém, vem o despreparo teológico tristemente demonstrado na interpretação da origem dos povos africanos e no desrespeito aos direitos das minorias.

Todo fundamentalismo é maligno.

A princípio, penso que o mandato político deva dedicar-se ao bem comum, ainda que isso possa ir de encontro à sua própria crença religiosa. A fé cristã deve ser proposta democraticamente, e não imposta. A aceitação dessa proposta, então, guiará o homem pelos caminhos por ela indicados.

Imagino também que a comunicação de Deus com seus filhos se dá fundamentalmente pelo amor dito baixinho aos corações de todos eles. Penso ser profundamente contraditório que o Criador punisse um grupo de jovens irreverentes artistas estraçalhando seus corpos na encosta de uma montanha por alguma blasfêmia encontrada em alguma de suas músicas.

Além dos Mamonas Assassinas, John Lennon aparece como mais uma vítima do julgamento de Feliciano, segundo quem, o ex-Beatle recebeu três balas – uma em nome do Pai, outra em nome do Filho e mais uma em nome do Espírito Santo – pela declaração de que os Beatles eram mais populares do que Cristo. Imagino o que teriam feito, por exemplo, os passageiros de todos os aviões que caíram e todos os que perderam as suas vidas pelas mãos de assassinos. Blasfemaram também? Julgando, Feliciano será também julgado. É o que diz a Bíblia.

A violência verbal igualmente se volta aos homossexuais. Com todo o preconceito contra si, será que alguém seria homossexual por escolha? Creio que não... Feliciano declarou recentemente num programa de tevê que Daniela Mercury revelou-se homossexual por oportunismo. Sinceramente, não me convenço de que 15 minutos de fama a mais fizessem alguma diferença na sua carreira.

Não podemos deixar de lembrar que o meio político é mais promíscuo e desonesto do que qualquer outra aglutinação humana. Senão, que tal recordarmos das operações Sanguessuga, Entre Irmãos e Pandora, onde havia a presença de deputados intitulados cristãos? Nesse contexto, a carreira política dificilmente poderia ser seguida em paralelo à religiosa. Para dedicar-se a qualquer uma delas o homem teria de se afastar da outra, o que, de certa forma, é fundamentalismo também.

Porém, entre um fundamentalismo e outro, prefiro este.

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