“Mamãe, quando é que o mundo vai acabar?” – perguntavam algumas crianças aos seus pais. Eu fui uma delas. Tanto meu pai quanto minha mãe davam a mesma sensata e cristã resposta, de que Deus não teria revelado este segredo nem a Seu Filho, Jesus, portanto, não nos caberia conhecimento tão profundo.
Estas palavras acalmavam nossos espiritozinhos puros, deixando-nos livres de tamanha preocupação. Assim, podíamos correr pelos campos sem medo e só ter esperanças para o futuro.
Pobres das nossas crianças de hoje. Nasceram e convivem com a sombria incerteza do amanhã.
Não sabem se haverá para elas a água. Terão seus próprios filhos?
Imagino como lhes devam ser rudes a internet e a televisão. Até mesmo os trabalhos de escola, que buscam criar em suas lindas e virgens mentes a consciência ecológica que seus avós não tiveram, revelam quanto já se perdeu da natureza e quão difícil será reverter essa trajetória.
Minha filha mais nova, então com seis anos, me pedia sofregamente para que mudasse de canal todas as vezes que o assunto da televisão era relativo à natureza. Era demais para e a minha pequena a realidade atual e a perspectiva adiante. Eu mudava o canal e ela punha-se a acariciar cabisbaixa o pelo macio de Jade, sua indolente gata persa.
Diante das atuais previsões de fim de mundo, desta vez colocadas na conta dos Maias, resolveu-se interpretar que no próximo dia 21 de dezembro de 2012, lá se vai o mundo embora. Como se as crianças precisassem de mais essa...
Lá se vão também seus pais, seus irmãos, seus amiguinhos, sua escola. Faz-se em fumaça ainda os seus longínquos sonhos de ter seus próprios filhos, de dar a eles o carinho que dão aos seus brinquedos, de dar a eles os brinquedos como sinal do seu carinho.
Agora, imagino que o meu papel de pai me incumbe de lutar contra essa indústria de angústia, pelo amor que temos aos nossos filhos, e ensinar-lhes que a grande mudança que se pode esperar é a de uma profunda transformação espiritual ou física, mas positiva.
Ensinar-lhes que há muitos bons homens no mundo e que eles são a maioria.
É nossa a responsabilidade de desenvolver nos nossos pequenos o importante senso crítico que os livrará das correntes do pensamento em bloco.
Se eles são as nossas esperanças, somos nós as deles.
Eles merecem que dediquemos nossa atenção a dar-lhes paz aos pequenos corações. Imagino que mereçam também receber de mim a mesma verdade salvadora vinda dos meus pais.
Que se acalmem os nossos pequenos.
Nem Jesus sabia.
(*) Escritor