ARTICULISTAS

A estranha matemática da idade

O nascimento do homem marca também o início da produção

Carlos Alberto de Oliveira
Publicado em 17/01/2013 às 20:23Atualizado em 19/12/2022 às 15:16
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O nascimento do homem marca também o início da produção frenética de células, em todos os cantos do seu corpo. Aos milhões, elas se multiplicam numa velocidade extraordinariamente maior do que as que morrem. Quando um ferimento acontece, um verdadeiro exército de glóbulos brancos sai em defesa do corpo, travando uma árdua batalha com as bactérias oportunistas que entram por ali.

Logo depois, forma-se a fibrina, depois a nova pele e pronto! Tudo volta ao normal.

Um processo semelhante acontece com as células do rosto, que, mortas, são rapidamente repostas por outras novinhas, evitando assim o aparecimento de rugas.

Visão, audição, tato, paladar, tudo vai melhorando, dia após dia. Ser jovem é mesmo uma delícia! Nós simplesmente vivemos o dia presente, sem a responsabilidade de providenciar o seguinte.

Na exata proporção da passagem dos anos, entretanto, essa velocidade de produção de novas células vai diminuindo até que se iguala à rapidez da sua mortandade. Estamos envelhecendo.

Quando eu tinha 20 anos, imaginava que a velhice seria inaugurada aos 50. Hoje, aos 50, imagino que somente com uns 70 aceitarei tal condição.

Sinto-me um menino com algumas limitações físicas e muitos desejos ilimitados. Mas, se metade de um século me impõe borda nas estripulias – sobretudo das minhas estruturas ósseo-musculares – ela me dá também o privilégio de poder orquestrar a realização dos meus desejos com os pés muito mais no chão do que em qualquer outro momento da minha vida. Se, jovem, não tinha a responsabilidade da providência do dia seguinte, hoje, maduro, estou mais perto de saber como fazê-lo chegar melhor.

Assim, faço questão de ter ainda uma moto entre minhas pernas e me aventurar em grandes viagens, de preferência com um par de braços femininos a circundar-me a cintura já nada fina. Pretendo também velejar pela costa de Parati visitando um montão de ilhotas pulverizadas sobre as águas claras e calmas do lindo litoral do sul do Rio de Janeiro.

Isso, claro, já perto dos 60. Até lá a usina produtora das minhas células já terá entrado num ritmo ainda mais lento, é verdade. Mas o meu coração, tenho certeza, continuará menino e tentará bravamente compensar o déficit com doses maiores de entusiasmo, como já vem fazendo.

Meu pai me disse uma vez, que um homem sem sonhos é um homem sem vida. E é por isso que vale a pena viver: por lutar pelos nossos sonhos. Afinal, a velhice não é assim tão ruim, se considerarmos a alternativa. Envelhecer ainda é muito melhor do que morrer cedo.

Então é assim: a gente nasce e, ainda criança, pensa que um homem de 20 anos já é um homem. Aos 20, achamos que um cara de 40 já pode ser chamado de “tio”. Aos 50, nos ocorre ajudar os velhinhos de 70.

Tudo isso para, ali pelos 80 ou 90, já perto do encerramento do nosso ciclo na Terra, a gente concluir que a velhice não existe.

No final de tantas contas, resta aqui o meu pedido a Deus para que me dê vida longa e, sobretudo, principalmente e a todo custo rica em sabedoria, até porque nem sempre a sabedoria vem com a idade.

Às vezes, a idade vem sozinha.

(*) Escritor e contador de histórias e estórias

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