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Uberaba, 17 de junho de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Redes do silêncio

Em pleno século XXI, onde convivem as gerações y e z, em seus usos e abusos, não é incomum vermos o assunto redes sociais vir à tona. Uma grande parte do diálogo dos jovens – se é que ele existe – é perpassado pela consideração dessas tecnologias. Mais do que uma ditadura da moda, como dirá o filósofo francês Gilles Lipovetsky, o tema se tornou um requisito, fundamental até, para a maioria das pessoas e suas vidas. É importante frisar que não há aqui um ataque aniquilador às redes sociais; mas sim uma análise necessária dos efeitos sentidos pela mesma sociedade na qual elas estão inseridas. Aliás, inegável a consideração acerca do papel que essas redes têm, bem como o serviço prestado à humanidade, mas...

Nem tudo são flores, se é que elas o são. Ao mesmo tempo em que as redes sociais aproximam, elas distanciam pessoas. Aproximam no sentido virtual, rompendo fronteiras e barreiras, e assumindo uma condição de ligação direta. Mas ao mesmo tempo em que aproxima, ela faz com que a individualidade cresça, num ato constante e repetitivo. Não vemos mais aqueles debates de calçada, onde os familiares e vizinhos, em determinada hora da noite, traziam suas cadeiras para a porta das residências, e passavam a tratar de temas variados. Não vemos mais a pelada no canteiro central das ruas, ou os jogos de bete no meio delas. O processo de inverteu. Hoje, ao invés de irmos para as ruas brincar ou conversar – aliás como as mães costumavam fazer quando os filhos importunavam, ou implicavam de alguma maneira –, realizamos um movimento contrário: saímos das ruas, o mais rápido possível, para a “segurança” do lar.

Pode soar como saudosismo, mas essa é a dura realidade: as redes sociais não conseguem cumprir com a “barreira da pele”; esse contato humano essencial para o desenvolvimento da espécie. Além do mais, o que temos observado a cada dia, é que todo esse movimento das redes sociais tem causado problemas mais graves. Já existem pessoas que não mais sabem como conversar pessoalmente, pois não têm a segurança da internet. Outros não sabem mais manuscrever, pois atualmente só digitam, seja nos teclados ou no touch screen. Não há mais o som das vozes, só o teclar dos dedos numa velocidade ímpar – vide mesa de barzinho. E mesmo que haja um “movimento social”, ou mesmo “revolução”, “manifestação”, ou o que seja, não existe, em nenhum deles, possibilidade real de acontecimentos. De outra maneira, só podemos falar de movimento social, revolução ou manifestação, se houver fisicidade. Como alterar a realidade sem o movimento necessário, sem a mudança real, sem o contato humano? Enquanto redes sociais, como falar em relação social, sem re-lação; isto é, sem o ato de relar humano, de encostar no outro, sentir o outro.

Mesmo que digam o contrário, as redes sociais estão contribuindo para uma mudança brusca na realidade social, e mesmo na formação pessoal. Se nós não aprendermos como lidar com essa tecnologia, vamos continuar sendo escravos daquilo que criamos, num movimento de inversão do artífice e do artefato, do criador e da criatura. Segundo a sabedoria oriental, o silêncio é a virtude do sábio. No caso das redes sociais, a fala é a virtude dos loucos, ou seria dos doidos? Lacan que o diga.
 

(*) Mestre em Filosofia e professor universitário
gonsavios@gmail.com

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