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Uberaba, 24 de junho de 2019 -

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Savio Gonçalves dos Santos

Homunculus

Na tradição latina, a palavra homunculus se refere a homem pequeno. Durante anos, a alquimia e a biologia se dedicaram a estudar o homúnculo, colocando-o, inclusive, como uma etapa necessária da formação humana. Na alquimia, os homúnculos são seres criados a partir de objetos inanimados. Os animalculistas (biólogos que acreditavam que o humano era um ser pequeno em seu estado gestacional) afirmavam que havia no espermatozoide um pequeno humano que se desenvolvia dentro do ventre de uma mulher, chegando ao tamanho de um adulto depois de alguns anos. Entretanto, a escolha do termo que se apresenta como título deste opúsculo é de compreender a motivação social, política, econômica, religiosa, moral que se apresenta ainda na contemporaneidade, como uma prática de diminuição do ser humano.

A História mostra, como fiel zelante dos fatos, que a dinâmica de formação humana passa, quase que necessariamente, pelo processo de diminuição. Constantemente o humano é chamado a se avaliar como um ser pequeno, diante do grande. Como eleitor diante do candidato. Consumidor diante do crédito. Cidadão diante da cidade. Quando na verdade o processo de formação deveria ser bem o inverso. A prática que se apresenta no contexto social atual remete a discussão para uma conhecida frase de Maquiavel: “A todos é concedido ver, mas a poucos é dado perceber. Todos veem o que tu aparentas ser e poucos percebem aquilo que tu és.” Na verdade, os humanos não percebem que passam quase toda a vida sendo colocados como seres minúsculos.

Ao se fazer uma análise da vida humana pode-se perceber que desde o nascimento, até a morte, o humano é formado para compreender todo esse processo de diminuição como parte necessária de sua formação. Interessante observar que em quase nenhum momento busca-se trabalhar para que o humano seja o grande diante do grande, ou mesmo do pequeno. Os pontos fundamentais para análise podem ser percebidos quando se exemplifica vários momentos dessa formação. Primeiramente, ao se tomar as instituições sociais como exemplo, pode-se observar que na família, primeira das instituições, o humano é sempre tratado como o pequeno; o bebê; a criança; sempre seguindo regras impostas, nunca tendo direito a discordar. Se, por acaso segue um caminho diferente, corre o risco de ser retaliado. No ideário do jovem humano, a pequenez é requisito basilar para sobrevivência.

Quando se passa a sociedade, o humano é colocado como indivíduo; como cliente; paciente; cidadão; portador de números de identificação, que em nada contribuem para o reconhecimento como sujeito de sua história. O processo social exclui, segrega, mutila. A sociedade pode ser benéfica, mas a construção dela se dá sempre pela maldade. Inúmeros processos são criados, com o intuito de garantir que a população seja transformada em massa de manobra, que nunca se comparará ao grande governo. O coletivo se manifestando não passa de um pequeno grupo de baderneiros, motivados por um “intelectual orgânico” – conforme assevera Antônio Gramsci. Precisam de uma educação engessada, marcada pela dominação camuflada de uma ditadura mascarada chamada de democracia neoliberal.

Continua...

 

(*) Mestre em Filosofia, membro da comissão de avaliadores do MEC e professor Universitário
saviogsantos@gmail.com

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