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Uberaba, 10 de dezembro de 2018 -

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CRÔNICA DO DIA

Vânia Resende fala sobre o humor como saída em argumentação

Última atualização: 16/04/2018 - 07:52:50.

Chegar ao fim da picada é não ter uma saída convincente, quando, por exemplo, os argumentos não colam, por mais racionais que sejam. Se o sujeito não tem como se explicar, e usa um contorcionismo mental, está sujeito a incoerências na argumentação camuflada. O raciocínio é plausível se, mesmo contradizendo ou divergindo, abre percepções plurais. A demissão de William Waack, apresentador do Jornal da Globo e do programa Painel da Globonews, no final de 2017, gerou polêmica e controvérsias. A TV Globo afirmou, ao comunicar o seu afastamento, que ele teve atitude racista. Em 2016, por ocasião das eleições nos Estados Unidos, o jornalista encontrava-se a postos para uma entrevista; antes que ela fosse ao ar, um carro passou fazendo um buzinaço, ao que ele reagiu, dizendo: “Tá buzinando por quê, seu m. do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é”, e concluiu, virando-se para o convidado: “É preto. É coisa de preto”. Alguns meses depois, dois rapazes que participaram dos bastidores da gravação divulgaram essa parte na internet. Houve grande repercussão e muitas manifestações. Entre elas, um ex-colega de Waack se referiu à integridade do seu caráter, demonstrada no período de faculdade; também a jornalista Glória Maria, da Globo, defendeu o amigo com a opinião de que ele fez uma “piada de português”. 

Não é o caso mesmo de linchar o jornalista. Nem de lançar ao lixo sua jornada profissional de mais de 40 anos, com experiências importantes, inclusive, a do período em que foi exclusivo da Globo. Aos sábados, no programa Painel, sua posição foi sempre de um intelectual severo nas ideias, de crítica contundente sobre questões políticas, econômicas, históricas, sociais, nacionais ou estrangeiras. Duas imagens, então, compõem William Waack: o sério, de tom grave, na exposição pública, e o do humor, na surdina. Quanto a sua reação, ele admitiu como uma “piada”, expressão da irreverência da sua índole, e pediu desculpa a quem se sentiu ofendido. Ainda, julgou-se vítima da “gritaria” das redes sociais, da censura de linchadores, que, segundo ele, querem acabar com o modo de ser bem humorado, irreverente, brincalhão do brasileiro. Justificou que esse foi o espírito da piada, e que não foi racista.

Preconceitos não resistem à lógica. Mas, como nenhum ser humano é absolutamente puro e apolíneo, ninguém está livre de nunca ter incorrido em um, ou de ainda incorrer. Preconceitos, como também ataques e desculpas, em episódios como o do Waack que não são raros, não melhoram a realidade. Isentar-se de autocrítica; colocar-se só como crítico do outro; desviar o foco da culpa para patrulhamento ideológico, ou para o politicamente correto, são vias que não levam a mudanças essenciais. O embate violento é destrutivo e anticivilizatório; a crítica construtiva pode elevar o nível de consciência e civilidade. Como saldo importante do mal-estar social criado pela piada, o estigma contido nela não ficou silenciado, e trouxe a chance de reflexão. 

Há sinal de evolução democrática no tecido cultural e social que se pauta pelo princípio que se resume na expressão “corretamente humano”. Se esse princípio funciona, não se impõe o respeito com coação e medo da lei, dó e tolerância por caridade, ou obediência a dogmas de religião, porque o cotidiano das relações preza a potência da riqueza humanitária das diferenças. Interagir com o que não é igual a mim não é favor para com o outro; é ganho, na ampliação da identidade individual e do todo. Se conteúdos obscuros da história nacional colonizada emergissem do subterrâneo pessoal e social, com efeito perturbador (crítico, positivo), haveria possibilidade da troca de lugar da superioridade, para este outro: nem acima, nem abaixo. A mente que pensa e analisa com transparência tende à racionalidade da compreensão. O rir de si mesmo e do outro de maneira natural, transparente, não oculta resíduos que incomodam. Quanto a se associar sujeira sonora à cor do motorista, ficam as perguntas: Há lógica nisso? Onde está a graça? É de bom ou mau humor a natureza do riso dessa piada?

(*) Vânia Maria Resende
Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa 

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