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ENTREVISTA
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Thassiana Macedo - 15/09/2013

Gritos na Escuridão retrata chacina

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Era 23 de julho de 1978, um domingo de festa, quando 10 pessoas da mesma família, homens, mulheres e crianças, foram brutalmente assassinadas, algumas delas decapitadas, na periferia de uma cidade pequena chamada Volta Grande. Parece triste ficção de terror, e é. Mas, infelizmente, a estória é baseada em fatos reais. Caso acontecido bem perto daqui, em uma comunidade rural localizada em município vizinho a Uberaba. Embora trágico, o fato faz parte da história da região, época em que a ganância e a vingança ainda eram lavadas com sangue.

Trata-se da mais recente obra do ex-juiz federal Paulo Fernando Silveira: “Gritos na Escuridão – A chacina que abalou Volta Grande”.  Natural de Conceição das Alagoas, hoje ele ocupa a cadeira nº 20 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro (ALTM), sucedendo o escritor e visionário Mário Palmério. Autor de outros 11 livros, entre obras jurídicas, sociológicas e históricas, Paulo Silveira escreveu quatro romances antes de se aventurar no estilo de suspense e investigação, marca de “Gritos na Escuridão”.

Seis de seus livros estão no catálogo da biblioteca do Congresso Americano, como obras de maior relevância. Os livros “O Sertão da Farinha Podre – Uberaba e a Guerra do Paraguai” e “A Batalha de Delta” foram premiados em 2007 no 30º Prêmio Clio de História no estado de São Paulo. Isto porque escrever é apenas um hobby na vida de Paulo Fernando Silveira, pelo menos é o que ele contou em entrevista ao Jornal da Manhã. 

Jornal da Manhã – Fale um pouco sobre sua aventura literária.
Paulo Fernando Silveira –
De modo geral, tirando os livros de Direito e sociologia, comecei a escrever livros de ficção, mas baseados em fatos históricos, como em “O Sétimo Jurado”, “O Morro das Sete Voltas – Guerrilha na Serra da Saudade”, “Assassinato em Jaguara” e “Capão da Onça”. Finalmente, “Gritos na Escuridão” é baseado em uma chacina real que faço questão de não falar em qual cidade, porque primeiro estou preservando as pessoas da família que estão vivas, mas também os assassinos que ainda estão vivos. Por isso, faço a ressalva de que o núcleo da narrativa é baseado em fatos reais, mas inclui diálogos e personagens, além disso, alterei fatos para dar maior dramaticidade. 

JM – O senhor foi advogado e professor universitário, por que decidiu se embrenhar nessa área literária? Como começou a escrever?
PFS –
Na verdade, sempre gostei de literatura, história e filosofia. Desde menino sempre adorei livros, principalmente literatura. Lembro-me bem que o primeiro livro que me marcou, eu tinha uns 14 anos, foi O Assassinato da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe. Então, isso sempre me impressionou. Li a coleção inteira das aventuras de Sherlock Homes. Talvez eu tenha demorado para escrever, porque entrei no Banco do Brasil novinho, tinha 18 anos, e me dediquei 27 anos. Depois fiquei 10 anos trabalhando como juiz federal em São Paulo e Ribeirão Preto. Só na avenida Paulista, tinha 30 mil processos só para mim, e por dia, eu assinava de 20 a 30 liminares, o que me envolvia o tempo todo. Advoguei por 18 anos e fui professor na Uniube por apenas dois períodos, porque percebi que não era meu perfil, mas quando me aposentei é que surgiu o tempo para escrever. Outro detalhe é que não escrevo como articulistas ou contistas, gosto é da trama complicada e longa, ou seja, o romance. Não tenho habilidade para crônicas e contos curtos, e para escrever textos complexos com vários personagens e várias tramas é preciso muito tempo para organizar todo o conteúdo, pois nossa ideia é atrair o leitor para a leitura, que a história seja agradável, mesmo que seja um tema pesado como o da chacina, e que ao mesmo tempo traga elementos culturais. Nos meus livros, sempre procuro preservar nossas história e cultura. No livro “Gritos na Escuridão” tive de alterar datas, nomes e até criar um personagem fictício por conta de alguns acontecimentos para não imputá-los ao verdadeiro ou suposto autor, para, digamos, ele assumir a culpa. 

JM – Sei que o senhor prefere não contar onde realmente ocorreu a história, embora isso já tenha sido revelado. Então conte um pouco dos fatos que marcam a trama do livro.
PFS –
[Risos] É, estão dizendo, né... Mas para mudar um pouco a história tive que alterar alguns detalhes, como datas e até a ordem dos fatos. Na realidade, o delegado descobriu o mandante do crime primeiro, para depois prender os executores, mas eu inverti a ordem real dos acontecimentos para dar mais suspense, fazendo o delegado prender primeiro os executores, um por um, e só depois chegar ao mandante. O livro retrata uma chacina ocorrida em Volta Grande, uma cidade fictícia que eu criei, de uma família inteira, com 10 mortos e um ferido, em que duas vítimas foram decapitadas e nenhuma testemunha presenciou o crime. Um agente da polícia de Belo Horizonte e o delegado local é que tentam apurar e descobrir quem cometeu um crime tão bárbaro assim, de uma violência tão extrema. O crime aconteceu na periferia da cidade, na porteira de uma fazenda e não teve testemunhas. Quando a polícia chegou só encontrou os corpos. Três vítimas ainda estavam vivas, sendo uma criança de colo, que tinha levado um tiro no rosto, um menino pequeno de uns 8 anos e uma moça de 15 anos. Só que no hospital, tanto o menino quanto a moça morreram e apenas a criança de colo sobreviveu e que não tinha como contar para a polícia quem eram os autores do crime. 

JM – Por que o senhor escolheu justo esse caso que chocou tanto a população da cidade onde ocorreu assim como toda a região e um fato que ainda não foi esquecido?
PFS –
Justamente porque gosto de pegar em cada cidade aqueles fatos que vejo como os mais emblemáticos. Estudei muitos autores que escreveram sobre a história de Uberaba, como Hildebrando Pontes, e notei que há muitos fatos importantes, mas a participação de Uberaba na Guerra do Paraguai e a batalha de Delta, na Revolução de 1930, um assunto nacional por disputa de poder em que Uberaba tem participação decisiva, já que uma das batalhas principais foi aqui. Na minha visão eram os mais marcantes e, por isso, decidi transformá-los em livros. No livro “O Sétimo Jurado”, achei que era o modo mais emblemático de retratar uma pequena cidade do Alto Paranaíba e falar sobre a dominação política do coronel. Em cidades pequenas, era comum mandarem no local o fazendeiro mais rico, o coronel, o padre, o prefeito que era mandado pelo coronel, e o gerente do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica. Eram as figuras mais marcantes há anos. Mas o mais poderoso era sempre o coronel, que a seu lado tinha o jagunço, faces da mesma moeda. Uberaba teve muitos jagunços também naquela época antiga. Nesse livro sobre Delta, conto um fato do dia de certa eleição. Havia uma urna que ficava dentro da Igreja Matriz e o coronel mandou os jagunços baterem naqueles eleitores que fossem votar no opositor. Isso é um fato em Uberaba. No caso de “Gritos na Escuridão”, peguei essa chacina, porque acredito que nessa cidade, que acabei chamando de Volta Grande, era o fato mais emblemático. Não conheço outro tão relevante e tão caracterizador da cidade quanto este da chacina. 

JM – No caso real houve uma reviravolta recente, quando os assassinos foram libertados pela Justiça, a qual ainda está muito arraigada por leis um tanto arcaicas e não propriamente à punição do que se desenrolou naquela cidade. Como o senhor avalia a solução deste caso, do ponto de vista jurídico?
PFS –
Essa é uma pergunta importante, porque no fim do livro eu dedico um capítulo a este aspecto. Sobre as condenações, sobre quem cumpriu pena e quem não e por quê. E ainda sobre como funcionam nossas leis, que eu entendo que estão todas equivocadas. Nos Estados Unidos prevalece a lei da pena como retribuição do crime. Ou seja, a pessoa que comete um crime tem que pagar por ele. O Brasil adota uma teoria, que é apenas teoria tirada da Europa, de recuperação do preso. Aqui a preocupação não é fazer o indivíduo pagar e a de que ele vá para a cadeia, mas que se recupere para voltar à sociedade. E isso é uma balela, porque acontece o contrário. Qualquer pessoa que entra na cadeia sai pior do que era, principalmente no Brasil em que as cadeias são terríveis. E então cito uma série de benefícios que as leis vão concedendo. Por exemplo, neste crime da chacina. Pela lei, em função do concurso material (cada delito é considerado um crime independente, com pena própria), a pena máxima é de 20 a 30 anos. Um professor de Direito da época disse que cada um iria então pegar 300 anos, ou seja, 30 anos por morte, sem contar a tentativa de homicídio da criança. No fim, um foi condenado a 187 anos, o outro a 163 anos e o terceiro a 197 anos, mas a lei no Brasil diz o seguinte: que ninguém pode pegar mais de 30 anos. Se o indivíduo pega 300 anos, já é reduzido para 30 na hora. Depois vem os outros benefícios, por exemplo, o preso era obrigado a cumprir na cadeia só um sexto da pena. Hoje isto aumentou um pouco, ou seja, cinco anos e vão cumprir o resto da pena em regime semiaberto, o que no Brasil é outra falácia. Deveriam haver estabelecimentos agrícolas em que o preso trabalharia durante o dia e à noite voltasse para a penitenciária, mas não temos isto, então fica só no papel. Como não há lugar para todos, vira tudo faz de conta. Desde Dom João VI, tudo é feito para inglês ver, faz a lei bonitinha, mas na realidade ela não funciona. 

JM – Esse caso resume um exemplo de violência como a atrocidade que ela foi. Como o senhor vê essa questão?
PFS –
Esse caso foi tão terrível que não me achei capaz de traduzi-lo em palavras. Acho que o que aconteceu na realidade foi muito pior do que eu consegui escrever. Confesso que me senti até um pouco impotente de achar um jeito de traduzir tamanha crueldade como aconteceu no caso real. Não sei se consegui traduzir pelo menos um pouco dessa perversidade pela forma cruel como ocorreram as matanças. O leitor é que vai me falar se tive sucesso. Mas tive um cuidado especial em não desvirtuar os autores ou a realidade, nem em fazer pré-julgamentos ou preconceber coisas contra eles. 

JM – E como foi o processo de pesquisa e de construção desses personagens para a obra?
PFS –
Realmente deu muito trabalho, embora pareça fácil para o leitor que vê o livro pronto. Mas conversei com o juiz que atuou no caso, assim como o promotor e ele me forneceu material, cópias de processos e interrogatórios que ele me mandou para examinar. Conversei com o jornalista que acompanhou o caso real e ele me subsidiou com muitos fatos e detalhes que lembrava. Fui ao Arquivo Público, onde peguei os jornais da época que fotografei e li para resumir os fatos mais importantes e as datas. O crime aconteceu em um domingo, realmente, mas como eu retroagi para sair do real tive que fazer as readequações das outras datas. Para os personagens tive alguma dificuldade, porque havia muitos personagens acessórios, ou seja, familiares, e tive que tirá-los para evitar a confusão do leitor. No livro e na realidade há uma inter-relação de parentesco muito grande. O fazendeiro que morreu tinha muito mais filhos do que os que coloquei. Eu ainda tive que mudar o nome de cada um e lembrar quem era quem, e descrevê-los para criar na mente do leitor a imagem do indivíduo, entendendo e participando da história. 

JM – Na sua opinião, essa violência do tempo dos coronéis de que o senhor fala mudou muito em relação aos dias de hoje?
PFS –
As relações de poder mudaram muito pouco. Elas só ficaram mais atenuadas. Hoje a violência, que antigamente era exercida fisicamente por quem detinha o poder, foi transformada em corrupção, mas ainda existe. E a corrupção é uma violência muito grande. Pensamos que o juiz tem que fazer justiça, porque ele ganha para isso. Acontece que o profissional vive em um contexto, ele tem mulher e filhos, que muitas vezes sofrem as pressões em seu lugar. Por exemplo, o filho exerce uma profissão, eles cerceiam, se ele tem cargo comissionado, eles lhe tiram o cargo em represália. É complicada essa relação de poder até para o judiciário. Tenho escrito em meus livros de Direito e sociologia, como o livro “500 anos de Servidão – A lei como instrumento de dominação política no Brasil”, que o Judiciário, até recentemente, ou seja, só a partir da Constituição de 1988, está começando a ser independente. Veja agora o caso do deputado federal Natan Donadon. Foi a primeira vez que um político foi para a cadeia, e já estamos em 2013. Os políticos se preservam, porque têm a proteção da lei. Um exemplo é essa decisão do Supremo Tribunal Federal que está prestes a julgar de novo os réus do Mensalão. Ou seja, vai acabar dando em nada. É aí que está o problema do Brasil. A violência baseada na truculência física ficou mais refinada e funciona à base de corrupção, coação e opressão. 

JM – E a solução para essa violência moderna e para essa servidão à qual o brasileiro se submete com relação às leis, ainda está distante?
PFS –
Muito distante. Porque a primeira coisa que precisa mudar é o povo. Então é preciso que os jovens e o povo entendam sobre essa relação de poder e sobre seus direitos individuais e coletivos, mas também que precisam lutar para que isso prevaleça. Quando elegemos um prefeito ou político, até recentemente, ele era reverenciado como se fosse o dono da cidade e a quem se devia favor. Hoje é preciso ter em mente que ele é um empregado eleito por quatro anos para prestar serviço à comunidade e se ele não for bom empregado fazemos como em qualquer empresa, mandamos embora. O povo tem que começar a entender que o vereador é eleito para fiscalizar o prefeito, mas se ele assume o cargo e no dia seguinte vai ao prefeito pedir emprego para a mulher, o filho e o parente, ele se vendeu e não vai fiscalizar ninguém. Ou seja, se o povo não fiscalizar a corrupção continua.






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