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Maria Aparecida Alves de Brito - 17/03/2014

O Brasil que no queremos

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Li uma notícia num jornal de São Paulo e por mais que eu tente esquecer o seu teor não consigo. Não consigo assistir ao sofrimento humano sem pensar que tanta miséria poderia ser evitada se não fosse a indiferença das pessoas que ocupam cargos públicos e usurpam o dinheiro dos impostos pagos pelos trabalhadores brasileiros em detrimento de si próprios.

Ingênuos, caminham pela vida como se eternos fossem. Se esquecem que o tempo é o seu algoz, o cobrador implacável e que tudo nessa vida não passa de ilusão. Seria fácil para mim, nesta linda manhã ensolarada, escrever sobre a beleza dos ipês que em breve florescerão no árido serrado, sob um céu azul sem nuvem alguma para aplacar o sol que vai tornando a paisagem ressequida. Mas à noite, uma lua compadecida de tanta sofrência do pobre ipê, ilumina suas lindas flores, tornando-as prateadas e as nossas madrugadas telas de infinita beleza. Mas não posso.

Não depois de saber que uma criança em Goiás foi encaminhada ao conselho tutelar e posteriormente a um hospital com inúmeros bernes espalhados pela sua cabeça e pescoço, causando-lhe muitas dores, relatou a chorosa menina. Quanto padecimento pode suportar uma criança sem esperança em um horizonte que não seja o nada. Que país é esse? De um lado, a opulência de alguns. Do outro, a miséria de uma família que vive num barraco tendo à sua porta um esgoto que corre a céu aberto.

Uma família onde a irmã mais velha, uma adolescente de quinze anos saiu de casa para ir viver com o namorado, deixando aos cuidados os irmãos mais novos a uma irmã de onze anos, que não consegue sequer cuidar dela própria. Teria sido melhor, quando foi cogitada que a copa poderia ser realizada no Brasil, que a presidente Dilma tivesse jogado limpo com os organizadores e com o povo e dissesse que os bilhões que seriam gastos em reformas e construções de estádios seriam gastos em melhoria da saúde e escolas públicas, em saneamento básico, em melhoria dos salários dos trabalhadores brasileiros, já que o que ganham não vivem, sobrevivem. Mas não.

Envolvidos pela ganância, pela desfaçatez, mostrando lá fora uma realidade que em nada condiz com a que vivemos aqui, distribuiu dinheiro a torto e a direito para serem aplicados em obras que, terminada a copa ficarão, certamente, às moscas. Como acreditar num país onde vemos nossas crianças carregando nas suas cabecinhas, em lugar de sabedoria, cantigas de roda, alegria e vontade de brincar, insetos que antigamente só se via em gado mal cuidado. Até que ensaiamos uma manifestação aqui, outra acolá, para ver se colocamos fim a essa situação que tanto nos envergonha e penaliza a população em todos os sentidos. Mas não fomos preparados para reagir. Vivemos numa sociedade que a tudo aceita, que engole o choro por mais que nos doa.

Os bernes na cabeça da criança? Dirão alguns: ai que nojo. Ou: será que essa mãe não viu isso? Nossa que falta de higiene, que ignorância dessa mãe. E eu digo, ignorância não, é miséria mesmo. Estamos precisando sair da letargia em que nos encontramos, deixar cair o véu que obscurece os sentidos e acomoda o corpo. Parar de acreditar em promessas de políticos que sabemos nunca serão cumpridas, servindo apenas para enganar os desavisados. Precisamos repensar que Brasil queremos, se é o que estão nos impingindo ou o que sonhamos. Certamente não é o Brasil que merecemos. Dentro em pouco teremos eleições e será possível aniquilar, tirar do cenário político, em apenas um apertar de botão, pessoas cujos projetos são apenas os que lhes favorecem.
 
Maria Aparecida Alves de Brito
Pedagoga, Especialista em Educação Especial



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