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Carências e abundâncias

Caminhava o táxi e o passageiro observava as calçadas da metrópole quando uma cena chamou sua atenção

19/04/2019 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

Caminhava o táxi e o passageiro observava as calçadas da metrópole quando uma cena chamou sua atenção. Dois meninotes, do tipo classificado como pivete, estavam sob uma marquise. Carinhosamente, um catava piolhos na cabeça do outro. Tudo evidenciava que a rua era sua morada. Eram menores ao abandono, sem lar que pudesse abrigá-los. Daqueles que todas as manhãs saem para caçar, buscando a sobrevivência para o dia, ainda que para tanto tenham que hostilizar as pessoas comuns, subtraindo pertences para vender a receptadores. Estes, verdadeiros bandidos. Um deles agia como a mãe, o irmão, o ente que afetuosamente cuidava do outro. Era, ao seu modo e possibilidade, a expressão e o exercício do amor. Ainda que agressivos com a sociedade guardavam candura.  Ao visto, carentes de quase tudo de material, possuidores apenas da vontade de viver. Ao piscar dos olhos, o observador lembrou-se da notícia das constantes investidas ao suicídio de tantos dotados da abundância material, que vivem em lares aquecidos, mas sem amor verdadeiro. Têm amor equivocado, que abafa o rebento por excesso de proteção e fornecimento de aparato. Falta a estes, motivação de busca. Tudo é suprido, tudo abundante, sem espaço para desejos e sonhos. Extremos opostos com efeitos opostos. Pobres pivetes cheios de carências e desejos, ainda que breves. Ricos filhotes sem motivação para nada, pois nem para sonhar resta lacuna, pela antecipação das vontades, pela exclusão de qualquer esforço, criando o enfado pelo excesso. Extremos opostos tão próximos do perigo. É que proteção demais também faz mal.

(*) Juiz de Direito

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