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Uberaba, 25 de junho de 2019 -

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Padre Prata, jovem aos 96

Escrever ou falar sobre a partida de um amigo é, para mim, uma das missões mais difíceis

07/04/2019 - 00:00:00. - Por João Eurípedes Sabino

Escrever ou falar sobre a partida de um amigo é, para mim, uma das missões mais difíceis. Só aceito porque não sou de fugir à responsabilidade e apresento-me para tal, mesmo com o coração partido. 

O amigo que me seccionou o coração é o sempre presente Tomaz de Aquino Prata, o Padre Prata. No dia 04/04/2019, o vimos partir assim de repente, embora ele mesmo tenha nos avisado em tom de despedida no dia 23/02/2019, na Assembleia da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, que: “Esta é a última vez que venho à Academia. Eu, com 96 anos, minhas forças não me permitem mais...”. Foi aparteado por todos, mas não sabíamos que naquela decisão havia certezas conhecidas somente por ele.

Meu vínculo com o amigo Padre Prata sempre teve características inexplicáveis por nós dois, talvez seja porque tivemos posições filosóficas diferentes e isso nos unia estreitamente.

Algumas das várias vivências nossas: há vinte anos foi ao meu escritório pedir explicações por que escrevi o artigo “Pedofilia; isso não acontece com meu filho”. Parabenizei-lhe de outra feita por ter escrito a crônica “Os velhinhos da Praça Rui Barbosa” e, sem me conhecer direito, levou-me uma cópia com dedicatória. Noutro ensejo fui substituído por ele na Biblioteca Municipal, quando eu deveria discorrer sobre a vida de Orlando Ferreira, o Doca, temível até hoje. Esteve presente nos lançamentos de todos os meus livros e eu idem com relação aos dele. Fizemos crônicas juntos na extinta Rádio Sociedade – PRE5. Gostava de me convidar para um café ou sorvete à tarde pela cidade. Foi meu ombro amigo na Academia, mormente nos dias iniciais do primeiro mandato. Há dez anos, quando lhe mostrei o esboço do nosso brasão, aprovou e sugeriu que acrescentasse a frase “escribimum ad aeternum”, escrevemos para a eternidade. O presidente Mário Salvador, Padre Prata e eu fizemos um tour por Uberaba e ele ficou deslumbrado com o tamanho da cidade que o viu nascer. Nos meus primeiros tempos na instituição, eu o apanhava em casa para irmos juntos às reuniões. Atrasar um minuto para ele valia por uma hora. O café acadêmico em sua residência no dia 16/05/2018 foi inesquecível.

Fiquei lhe devendo essa: a imagem de Santo Antônio, trazida por major Eustáquio quando aqui se aportou, está em poder da Academia e a outorga dessa em comodato ao Museu da Arte Sacra estaria a seu cargo por pertencer ao clero. Convido o confrade Jorge Alberto Nabut para que abrace essa missão.

Padre Prata: alegre, conciliador de todas as horas, desprendido, reflexivo, despojado, solidário, ouvidor, participativo, acadêmico exemplar, literato produtivo e cronista frequente por anos a fio neste diário. 

Padre Prata: sentia-se jovem aos 96 anos e estimulava a todos para não diminuírem o ritmo da escrita, exercício que lhe fez tão bem.

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