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Estórias de o noivo abandonar a noiva na porta da igreja ou de a noiva deixar o noivo em espera

06/04/2019 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

Estórias de o noivo abandonar a noiva na porta da igreja ou de a noiva deixar o noivo em espera e não comparecer ao casamento acontecem. Todavia, o noivo largar da noiva logo depois da cerimônia do casamento é coisa rara. De fato, o moço apaixonou-se por ela. E parecia até correspondido. Para começar o namoro, ela obrigou que ele jurasse que de tudo faria para que ela se sentisse feliz. Ele, enxergando nela a destinatária de seu amor, prometeu que sim. Ele adorava agradá-la. Queria cumprir o propósito. Daí ela sempre apresentava um novo desejo, um sonho. E ele logo buscava atendê-la. Ela foi ficando cheia de vontades. Ao mais remoto anseio ele providenciava prover. Esforçava-se para tanto. Assim foi seguindo a relação. Atendida uma pretensão, logo outra surgia. Porém, sempre havia um senão, um detalhe que faltava para o pleno contentamento. E, por mínima que fosse a falta, ela alegava, não o poupava. Não guardava mesmo. Logo já almejava outro capricho. Pensava ele, natural, sonhos se renovam. Mas nunca, nada a contentava plenamente, por mais que ele esmerasse. Sempre reclamava, ainda que fosse de uma filigrana. Agia inconsciente, era um hábito de formação. Ela não cuidava de detectar esse traço. Nada lhe era pleno. Ele insistia, afinal, era seu Amor. Assim seguiram até que resolveram se casar. Então, ela montou um projeto com a cerimônia e festa dos contos de fada. Todos os mínimos detalhes de requinte pensados. Porém, o moço já se sentia entediado com a sua incapacidade de fazer a moça plenamente feliz. Estava cansando, mas esforçou-se. Enfim, houve a cerimônia. Tudo aparentemente nos conformes. Encerrado o ato do sacramento, saíram da igreja e à porta aguardava a bela carruagem com três juntas de cavalos, como projetado. Já andando a carruagem, o noivo perguntou se ela estava feliz, se tudo tinha ocorrido nos moldes de seus sonhos e aspirações. Ela disse, quase. Afinal, não foram atendidos alguns detalhes. Por exemplo, esses cavalos do coche não são brancos e devia saber que cavalos de contos de fada são todos brancos, sempre. Ele suspirou e entendeu. Jamais a faria contente, quanto mais feliz. Ele chegou a duvidar do amor dela por ele. Extenuado, calmamente pediu ao cocheiro para parar, desceu. Solicitou que a levasse onde quisesse e sumiu por tempo suficiente para que o alvoroço decorrente de seu ato serenasse e o casamento firmasse como não consumado. Mas, ficou na duvida se agiu “antes tarde do que nunca” ou se “cortou o mal pela raiz”.

(*) Juiz de Direito

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