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Aos mestres com carinho

As observações técnicas passadas pelo consultor na reunião da Comat/CBIC dia 7 de fevereiro

14/02/2019 - 00:00:00. - Por Dionyzio A. M. Klavdianos

As observações técnicas passadas pelo consultor na reunião da Comat/CBIC dia 7 de fevereiro, a respeito dos cuidados que se deve tomar na construção de uma barragem, seja ela de qual material for, para minimizar a possibilidade de uma ocorrência grave, batem de forma geral com boa parte das 17 prescrições citadas no relatório, apresentado pela imprensa, que teria sido entregue à mineradora pela consultoria. As terminologias técnicas utilizadas me fizeram voltar no tempo, para as aulas do curso de obras de terra. 

Não me lembro agora se foi durante a palestra ou no momento em que almoçávamos, quando nosso convidado nos contou que, em todo o Brasil, são poucos os especialistas habilitados para emitir laudos sobre barragens. Na Folha de 7 de fevereiro, a engenheira Maria Eugenia Gimenez Boscov, especialista em geotecnia ambiental, enfatiza a qualidade técnica dos dois engenheiros libertados em 6 de fevereiro. Certamente, imagino eu, fazem parte do grupo seleto mencionado pela especialista. Voltei no tempo de novo e me lembrei de um diálogo com o professor da referida matéria, acerca da barragem de Itaipu. Ele me disse algo mais ou menos assim: “quem executa obra pequena é provável que não consiga executar uma grande, quem executa obra grande certamente executa pequena”.

Quando sair o laudo técnico sobre o ocorrido, já estaremos envolvidos noutras pendengas e, provavelmente, só daremos uma olhadinha no resultado. Bom, então, nos fiarmos agora nas informações que nos fornece a imprensa. Tem chute, mas tem coisa boa pra depurar e é bom que as ruminemos, principalmente os que militam em entidades de classe, para que, com as lições recebidas, promovam ações de prevenção e melhorias, dando, também, sua cota de contribuição na mitigação da possibilidade de ocorrência de novas tragédias.

Não é só da imprensa tradicional que nos chegam notícias hoje em dia. A mídia social colabora bastante e, por meio dela, tomamos conhecimento de uma tese de mestrado que tratava exatamente da barragem desaparecida. O consultor ratifica que há mais uma, até. Surgiram, também, diversos textos pertinentes de entidades e colegas de profissão, que vale a pena serem lidos. Um bom aprendizado a distância, para qualquer profissional ou postulante, independente do tempo de formado. Pena que só tomamos conhecimento de tanta gente boa em momentos duros como este. Fica o convite para nos “encontrarmos” mais.

Lydio, e não poderia ser outro, pesquisa e encontra a ABNT NBR 13028 Mineração - Elaboração e apresentação de barragens para disposição de rejeitos, contenção de sedimentos e reservação de água - requisitos. A data da publicação, 2017, leva a acreditar que tenha sido já fruto da tragédia de Mariana, o que deve ser comemorado. Simples e objetiva, não nos toma sequer uma tarde para ser lida.

O livro que utilizávamos na aula de obras de terra não era destes convencionais, de um autor só, mas uma compilação de textos de especialistas diversos apresentados num curso de extensão. O coordenador do curso, uma pessoa nada convencional, nosso professor, engenheiro José Eduardo Moreira, teve a ideia de juntar tudo e, com o apoio da Universidade de Brasília e da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos, transformar num livro, de capa simples, textos datilografados, desenho a nanquim em papel vegetal e, o principal, de muito conteúdo.

Ao término da palestra na Comat/CBIC, o consultor, um jovem que não deve ter nem 40 anos, mostra-se preocupado com a qualidade da formação e aprendizado dos mais jovens que ele. Do hiato (erosão?) que vai se abrindo entre os velhos e novos.

Velhos como Milton Vargas e Paulo Teixeira Cruz, que, embora tenham ido, deixaram pontes para vencer a erosão, seus livros e textos. Aos mais jovens, cabe a tarefa de por elas trafegar. Se assim o fizerem, acreditem, já estarão contribuindo muito para mudar o estado de coisas. 

(*) Engenheiro civil formado pela UnB, diretor técnico da Construtora Itebra, presidente da Comat/Cbic e 1º vice-presidente do Sinduscon-DF

 

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