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A Bênção, Minha Avó

A nossa memória está repleta de lembranças fugidias. Sem querer, algum objeto ou circunstância casual

17/01/2019 - 00:00:00. - Por Olga Maria Frange de Oliveira

A nossa memória está repleta de lembranças fugidias. Sem querer, algum objeto ou circunstância casual aciona um fragmento do passado. A lembrança é como um trem que constantemente nos leva para visitar o passado. 

Tempos que se foram... eu me lembro bem. Sinto muita saudade da minha avó materna, que marcou a minha infância com sua figura humana tão contida e discreta. Rosa Bessin Frange optou por assumir a posição de coadjuvante na vida, para dali iluminar seus entes queridos.

Nascida em 1903 no norte do Líbano, em Zgharta, cidade de maioria católica maronita, veio para o Brasil em 1916, aos treze anos de idade. Junto com ela vieram dois irmãos e um primo. Viajaram a passeio, excitados com a aventura de enfrentar a travessia pelo mar num navio de grande porte rumo a um país desconhecido. Nenhum deles falava uma única palavra em português.

O navio atracou no porto do Rio de Janeiro, que foi onde se fixaram em primeiro lugar. Desembarcaram no Rio minha avó, seus irmãos Salim e Nasa e seu primo José Pedro Bessin (Raibir). Três anos depois, as irmãs Nasa e Rosa, junto com o primo Raibir, decidiram vir para Uberaba, onde viviam alguns parentes. Salim, por sua vez, preferiu permanecer no Rio.

Em Uberaba, Rosa conheceu Felício Frange, filho de libaneses, que lia e falava fluentemente o árabe. As famílias de ambos eram vizinhas, na rua Padre Zeferino. Do conhecimento até a união do casal foi tudo muito rápido. Felício era um jovem bem-apessoado, trabalhador e de temperamento forte. Rosa era uma jovem discreta, criada para se submeter a seu marido e se dedicar integralmente ao lar.

Dessa união nasceram seis filhos: Esmeralda, Neif, José, Olga, Dalva e Maria. José morreu antes de completar um ano de vida. Uma dor que minha avó jamais superou. Ela me contou essa história muitas vezes. Como estava hospitalizada por causa de um grave problema de saúde, os filhos ficaram sob os cuidados das empregadas. Uma delas, ao tentar colocar um sapatinho em José, que tinha oito meses de vida, quebrou o pezinho do bebê. Receosa de contar ao patrão, ela omitiu o ocorrido. Passados alguns dias, José veio a óbito em consequência de uma gangrena. Um episódio que deixou cicatrizes profundas.

Vovó Rosa manteve um sotaque carregado até o fim de sua vida, embora tenha vivido a maior parte dela no Brasil. A família Bessin era muito católica, sendo que inúmeros de seus integrantes optaram pela vida religiosa. Sua mãe, Marina, viúva, era proprietária de uma padaria em Zgharta. Caridosa, ela distribuía aos pobres toda a produção de pães dos sábados e domingos. Era muito querida em sua cidade.

Meu avô tinha um temperamento solar, brilhante, barulhento e invasivo, mas minha avó era lunar e se colocava sob uma luz diáfana e noturna em relação ao astro-rei. Assim eles se completavam.

Vovó Rosa tinha domínio de uma imensa variedade de trabalhos manuais: bordava, fazia crochê divinamente, tricotava, costurava, cozinhava iguarias da culinária árabe e preparava chás com propriedades medicinais. Sua casa fervilhava de vida, com a presença dos filhos e seus 14 netos, que viviam mais lá do que em suas próprias casas.

Durante o longo período em que ela permaneceu acamada, já velhinha, tivemos longas conversas. Eu a enchia de perguntas sobre a sua infância em sua terra natal. Aí o fio de suas memórias começava a correr como um rio que viesse das cabeceiras de sua vida. Momentos felizes de sua infância ressurgiam de suas lembranças, despertando emoções que pareciam esquecidas. Num desses momentos mágicos, ela me disse: “Se me levassem para Zgharta, me vedassem os olhos e me deixassem em qualquer ponto da cidade, tenho certeza de que chegaria em minha casa, mesmo sem enxergar. Meus pés me conduziriam sem nenhuma hesitação”. Seus olhos estavam úmidos de lágrimas e eu pude perceber, pela primeira vez na minha vida, o quanto ela amava o Líbano e como foi difícil permanecer longe dos seus familiares e do seu país.

Após a morte de seu querido Felício, ela foi, aos poucos, definhando. Estava envelhecida e era como se tudo o que pudesse ser dado a ela por nós já viesse tarde demais.

Depois de sua partida, nunca mais voltei à sua casa. Dói demais, vai doer demais, imagino. Passo diante da casa e vejo o abandono em que se encontra, sem lembrar, nem de longe, a pulsante vida que ficou definitivamente para trás.

Que saudade, vovó Rosa! A senhora saiu do nosso jardim para enfeitar e perfumar os jardins do Eden. Bença, vó! 

(*) Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba, ex-diretora-geral da Fundação Cultural de Uberaba

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