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Como vai?

Dois homens que não se viam há anos se encontraram fortuitamente. A vida havia conduzido

06/08/2018 - 22:03:35. - Por Mário Salvador Última atualização: 06/08/2018 - 22:03:47.

Dois homens que não se viam há anos se encontraram fortuitamente. A vida havia conduzido cada qual pelo seu caminho e, há muito, um não recebia notícia do outro. A rigor, talvez um nem se recordasse mais do outro.

Um aperto de mão, um tapinha nas costas... E um dos dois deu de fazer aquelas perguntas retóricas: “Como vai? Como tem passado?”

Pra quê? Era essa a oportunidade pela qual o antigo colega ansiava. E não é que ele encasquetou mesmo que tinha obrigação de fazer um relatório sobre seus últimos anos?! E foi entornando uma enxurrada de informações bastante indigestas, quanto à sua saúde, às suas finanças, ao seu emprego, à sua família... Ai, ai!... Para encurtar conversa para você que me lê, o discurso teve o tom de uma ladainha infinita, inconveniente e inútil. Não há interlocutor que não fique muito aperreado numa circunstância dessas.

E foi o sujeito parar um segundinho de nada, a fim de beber um golinho de água, antes de continuar a conversa, que o colega aproveitou a trégua e soltou os cachorros:

– Rapaz, você está de brincadeira comigo! Está tudo difícil para você. E para mim, também! E mais para um monte de gente. Mas relaxe! Pelo menos uma gentileza eu posso lhe fazer. Vou até mudar de parágrafo para eu tomar fôlego, que estou sentindo falta de ar depois de ouvir esse tanto de adversidade que você mencionou aí.

Seguinte: vou lhe dar uma ideia. Quando você se deparar com um antigo colega, tipo eu, que você não vê há um tempão, e ele lhe perguntar como é que você vai, não carece de você dizer a verdade, não. Afirme que está tudo bem, mesmo que não esteja. Essa não é uma regra escrita. É uma artimanha, uma sabedoria, uma astúcia da vida social. Senão ninguém aguenta. Seja cortês quando ouvir uma pergunta dessas, rapaz. E tem mais:

Depois que a conversa vai e a conversa vem, a prosa vai rendendo e então, lá no meio do assunto, alguém pergunta, despretensiosamente, ora sobre o emprego, ora sobre a família... E nesse caso, sim, você faz uma síntese dos acontecimentos. E só para acabar:

Se não for dessa forma, pode ter certeza: assim que você der uma respirada lá no meio do desabafo, o fulano vai logo se apartando de você, diz que está um pouco atrasado para o serviço, mas que foi bom rever você, e até a próxima, e coisa e tal... Da próxima, colega, vá na mentirinha social, que às vezes cai muito bem e não escangalha o dia dos outros. É isso. Tenho dito.

Pois é, caro leitor! Amigos íntimos se entendem bem e só eles vão, sim, querer saber tudo o que o outro tem para revelar. Quanto ao resto da sociedade, “ema, ema, ema; cada qual com o seu problema”. Que cada qual padeça com suas angústias, seus lamentos, suas preocupações, seus apertos... e poupe os conhecidos. Quanto a mim, estou bem, obrigado. E você, como vai?

 

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