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Luciano Bitencourt - 20/03/2018

Projeto Sibarita

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Do alto das Mercês, por volta da década de 1980, via-se com nitidez a Rua Princesa do Sertão. Edifícios pouco se erguiam, e os que ali existiam não ofuscavam totalmente a extensão do logradouro. Sob a imagem santa de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, certo imóvel além-morro acirrava a curiosidade da garotada. Que lugar era aquele? Quais mistérios encerrava? Tabu, naquele momento, além do tradicional restaurante localizado próximo à rodoviária, só Os Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues, e Calígula, de Tinto Brass. Lagoa Azul e Endless Love já marcavam presença cativa na tevê, enquanto os calendários eróticos de bolso, vez ou outra, podiam ser surrupiados de um tio acometido pela embriaguez dominical. Nada suficiente para contornar o repertório minguado de desventuras de um infantojuvenil. Até que uma segunda-feira ensolarada desabou sobre a minha cabeça. Foi quando decidi bater à porta daquela residência de cor verde e de janelas com telas protetoras que inviabilizavam do exterior a visão interna. “Pois não?”, disse-me a mulher que abriu a porta. Tomado pela timidez, não soçobrei: “A senhora poderia me dar um copo d'água?”. “Água?”, questionou-me, virando o rosto para trás e olhando com ironia para outras quatro mulheres sentadas na sala. “Ah, vai, pegue água para o garoto!”, emendou uma delas. Assim que retornou e me entregou o copo, demorei alguns minutos ingerindo o líquido, enquanto fitava em 360° o interior da casa. Ao devolver-lhe o copo, não me intimidei em perguntar: “Posso entrar?”. A troça foi geral, principalmente, quando revelei minha escassa década de existência. “Pode, mas daqui a pouco você tem que ir embora”. Quão valioso é o instante frente à singularidade do tempo – essa plêiade de desejos, anseios, frustrações, decepções e memórias. Na saída, soltei uma única frase indagativa: “Posso voltar?”. E voltei, diversas vezes, embora nunca tivesse realizado a teleológica sedução daquele recinto que não poderia ostentar nome mais sugestivo: 38. Provavelmente, foi esse toque de criatividade que me levou a trabalhar com publicidade por um bom tempo. Ou estudar e lecionar filosofia. Pouco importa. Há de se ressaltar: os projetos de vida se desdobram onde a vida acontece. Mas os tempos são outros, o mundo evoluiu. Agora, a contemplação se faz do alto da Matriz, de onde se vê ao pé da Praça Rui Barbosa, um imóvel lôbrego, equânime em estranheza e curiosidade. Sua numeração, disfarçada em algumas centenas, poderia muito bem ser caracterizada por 765 ou pelos algarismos 171. Que lugar é aquele? Quais mistérios encerra? Não me arrisco a desvendar. Eu, como bom cristão, homem de princípios e de reputação ilibada, é que não me atrevo adentrar naquele ambiente e pedir um mísero copo d'água. Vai que resolvam discutir pornografia lá dentro. Deus me livre!

(*) filósofo e escritor




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